A agenda cultural da semana em Araras, produzida pela Secretaria Municipal de Cultura, tem como atração do Cineclube Entretrilhos a exibição de "Cabra Marcado para Morrer" (1984), do cineasta e jornalista carioca Eduardo Coutinho (1933-2014), e o lançamento do livro "Amor não é pecado", de Martinho da Conceição. A sessão é na quinta-feira (13 de agosto), às 19h, no Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita; o lançamento, no sábado (15), às 16h30, na Biblioteca Municipal Martinico Prado. "Cinema e literatura são duas manifestações artísticas que atraem muitas pessoas, por esse motivo sempre estarão presentes em nossa programação cultural", comentou o secretário de Cultura, Marcelo Daniel, o Mussa. As informações são da Prefeitura de Araras.

Os dois eventos são gratuitos e abertos ao público. O Cineclube Entretrilhos exibe filmes de repertório e debate após a sessão; a Biblioteca Martinico Prado sedia clubes de leitura, contação de histórias e lançamentos de autores da cidade e da região.

"Cabra Marcado para Morrer": o filme

Considerado um dos documentários mais importantes do cinema brasileiro, "Cabra Marcado para Morrer" começou a ser filmado em 1964 como ficção sobre João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado na Paraíba em 1962 — e foi interrompido pelo golpe militar, com a equipe perseguida e o material apreendido. Em 1981, Eduardo Coutinho retomou o projeto, reencontrou os camponeses que atuavam no filme original, entre eles a viúva Elizabeth Teixeira, e construiu um documentário sobre o que a ditadura fez com aquelas pessoas em 17 anos. Lançado em 1984, venceu prêmios em Berlim e no mundo e é obra de referência sobre memória, repressão e o papel do cinema.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a escolha do filme diz algo. "Exibir 'Cabra Marcado para Morrer' numa quinta à noite no interior paulista, em 2026, de graça, é programação de cineclube que leva a sério o nome. Não é filme de entretenimento: é Coutinho reencontrando camponeses que a ditadura dispersou, dezessete anos depois, com a câmera como testemunha. A Secretaria de Cultura de Araras poderia exibir blockbuster e lotar. Escolheu o documentário mais importante do país. É a mesma Secretaria que colocou 'O Conto da Aia' no clube do livro. Há uma linha editorial em Araras, e ela é de quem trata o público como adulto", avalia.

Eduardo Coutinho: o cineasta

Eduardo Coutinho (1933-2014) é o documentarista mais influente do Brasil — "Santo Forte", "Edifício Master", "Jogo de Cena", "O Fim e o Princípio" —, com método baseado na conversa: a câmera parada, o entrevistado falando, o diretor ouvindo. "Cabra Marcado" é a obra que fundou esse método e a mais política de sua filmografia. Morreu em 2014, no Rio; sua obra segue como referência em escolas de cinema e cineclubes como o de Araras.

Cineclube Entretrilhos: o projeto

O Cineclube Entretrilhos, da Secretaria de Cultura, exibe filmes de repertório — clássicos brasileiros e estrangeiros, documentários, produções independentes — no Centro Cultural, com debate após a sessão. O nome remete à estação ferroviária, patrimônio de Araras, e ao trilho como símbolo de passagem. É o espaço de formação de público para cinema que a cidade, sem sala comercial de arte, não teria de outra forma.

"Amor não é pecado": o livro

Martinho da Conceição lança "Amor não é pecado" na Biblioteca Martinico Prado — autor da cidade ou da região, em evento do tipo que a Secretaria promove regularmente para dar palco à produção literária local. O lançamento no sábado à tarde, com bate-papo e autógrafos, é formato que aproxima leitores de autores e alimenta o acervo da biblioteca com obras locais.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a agenda semanal é a política cultural em funcionamento. "Uma Secretaria de Cultura que publica agenda toda semana, com cinema na quinta e livro no sábado, de graça, está fazendo o básico que a maioria não faz: dar à cidade motivo para sair de casa e encontrar cultura. O Garimpo Urbano é o evento grande; o cineclube e o lançamento são a rotina. Mussa Daniel diz que cinema e literatura sempre estarão na programação — e a frequência confirma. Araras tem Centro Cultural, biblioteca centenária e uma Secretaria que os usa. Isso é mais do que muita cidade maior consegue dizer", observa.

Biblioteca Martinico Prado: o espaço

A Biblioteca Municipal Martinico Prado, no centro, é o equipamento cultural mais antigo de Araras — nomeada em homenagem ao senador Martinho Prado Júnior — e sedia os clubes de leitura presenciais, a contação de histórias e os lançamentos. O de sábado se soma ao calendário de agosto, que teve o clube discutindo "Se Deus me chamar não vou".

Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita: o palco

O Centro Cultural abriga o teatro, as salas de oficina, o cineclube e eventos como o Garimpo Urbano. A sessão de quinta usa o auditório com projeção e som; o debate após o filme é conduzido por mediador da Secretaria ou convidado. É o principal equipamento cultural da cidade e o mais ativo em 2026.

Elizabeth Teixeira: a personagem

Viúva de João Pedro Teixeira, Elizabeth Teixeira é o centro de "Cabra Marcado para Morrer": em 1964, interpretava a si mesma na ficção interrompida; em 1981, Coutinho a reencontra vivendo sob nome falso no interior do Rio Grande do Norte, separada dos filhos, escondida por 17 anos. A sequência em que ela reassume a identidade diante da câmera é um dos momentos mais fortes do cinema brasileiro — e o que o cineclube de Araras exibiu na quinta. Elizabeth morreu em 2023, aos 98 anos, reconhecida como símbolo da luta camponesa.

O debate após a sessão

O Cineclube Entretrilhos mantém a prática de conversa mediada após cada exibição — sobre o filme, o contexto histórico, a linguagem. Para "Cabra Marcado", os temas são a ditadura, as Ligas Camponesas da Paraíba, o método de Coutinho e a memória; para o público de Araras, com histórico rural e de imigração, é ponte entre a história nacional e a local. O debate é aberto e costuma reunir professores, estudantes e cinéfilos.

Cinema brasileiro em cineclubes

Cineclubes públicos são hoje o principal circuito de exibição de documentários e clássicos brasileiros fora das capitais — filmes que não chegam às salas comerciais do interior, dominadas por blockbusters. Programas como o Entretrilhos, com acervo licenciado e sessão gratuita, cumprem função que a Ancine e as leis de incentivo reconhecem: formar público e preservar memória. Araras mantém o seu com regularidade semanal ou quinzenal.

Cultura gratuita: o modelo

Toda a programação da Secretaria de Cultura de Araras é gratuita — cineclube, clubes de leitura, lançamentos, oficinas, Garimpo Urbano, Festa dos 164 anos. É política deliberada de acesso, financiada pelo orçamento municipal e por apoios como APAA e Estado, que remove a barreira de preço e coloca a decisão de participar apenas na vontade do morador.

Como participar

Sessão de "Cabra Marcado para Morrer": quinta, 13 de agosto, 19h, Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita — entrada livre, sem inscrição. Lançamento de "Amor não é pecado": sábado, 15 de agosto, 16h30, Biblioteca Martinico Prado — entrada livre. A agenda semanal é publicada no site da Prefeitura e nas redes da Secretaria de Cultura.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a semana é o retrato de uma cidade com vida cultural própria. "Coutinho na quinta, autor local no sábado, tudo de graça, com secretário dizendo que é assim que vai ser. Não depende de circuito comercial, de artista de fora, de patrocínio de banco. Depende de uma Secretaria que programa e de moradores que aparecem. Araras tem os dois. Quem foi ao Centro Cultural na quinta viu um filme que muda a forma de olhar o Brasil; quem foi à biblioteca no sábado conheceu um autor da própria cidade. É cultura de proximidade — a que forma leitor e espectador para a vida", analisa.

A agenda cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Araras para a semana de 10 a 16 de agosto de 2026 incluiu a exibição de "Cabra Marcado para Morrer" no Cineclube Entretrilhos, em 13 de agosto, e o lançamento de "Amor não é pecado" na Biblioteca Martinico Prado, em 15 de agosto.