O documentário "Navegar é preciso – A vida e as cores na arte de Erinho" foi exibido no sábado (28 de fevereiro), às 19h, no CEU José Olavo Paganotti, em Araras, com entrada gratuita e tradução em Libras. O filme, produzido com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, a PNAB, conta a trajetória de Erison Diego Francisco, o Erinho — artista urbano, grafiteiro, tatuador e skatista de Araras —, morto em setembro de 2024, aos 30 e poucos anos, atingido por bala perdida enquanto grafitava a fachada de uma barbearia na Avenida Presidente Vargas, no José Ometto II. A sessão teve abertura com o DJ Poke e o músico Johnny Camargo, amigos do artista, e a exposição "Reflorescer", com obras de Erinho e de artistas que ele influenciou. As informações são do portal Notícias de Araras.

"Erinho pintou a cidade — muros, escolas, quadras, barbearias. O documentário é a forma de a cidade devolver: contar quem ele era e o que deixou", disse o secretário de Cultura, Marcelo Daniel, o Mussa. O filme reúne depoimentos da família, de amigos, de artistas e de moradores, imagens dos grafites espalhados por Araras e registros do skate e das tatuagens; foi dirigido por realizadores locais selecionados no edital da PNAB de 2025.

Quem foi Erinho

Erison Diego Francisco cresceu nos bairros da zona leste de Araras e começou no grafite na adolescência, com o skate como porta de entrada para a cultura de rua. Tornou-se tatuador com estúdio próprio e um dos grafiteiros mais ativos da cidade — autor de murais em escolas municipais, no Parque Ecológico, em fachadas de comércio e em projetos da Secretaria de Cultura, com estilo de cores fortes, figuras e natureza. Era referência para jovens dos bairros e tinha projetos de oficina de grafite em escolas quando morreu.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o documentário é o que a cidade devia a Erinho — e ao que o matou. "Um artista de Araras morre pintando uma barbearia, atingido por bala que não era para ele, num sábado de setembro de 2024. Dezessete meses depois, a Secretaria de Cultura exibe o filme sobre a vida dele, com Libras, DJ, exposição, no CEU do bairro. É a resposta certa: memória, não esquecimento. Mas o documentário também é denúncia — Erinho morreu porque em Araras há tiro na avenida à tarde. A cultura fez a parte dela. A segurança pública ainda deve a de resolver por que a bala estava lá", avalia.

A morte: setembro de 2024

Erinho grafitava a fachada de uma barbearia na Avenida Presidente Vargas, no José Ometto II, quando foi atingido por disparo efetuado a distância, em ocorrência que a Polícia Civil investigou como bala perdida em contexto de disputa entre terceiros. Morreu no local ou a caminho do hospital, segundo relatos da época; a morte comoveu a cena cultural de Araras e gerou homenagens espontâneas — murais com seu rosto, rodas de skate, sessões de tatuagem beneficentes para a família.

O título cita o verso de Fernando Pessoa — "navegar é preciso, viver não é preciso" —, atribuído aos navegadores romanos e apropriado pela cultura de rua como lema de quem faz arte apesar do risco. Para os realizadores, sintetiza Erinho: um artista que navegou a cidade com tinta e skate, e cuja vida, imprecisa e curta, deixou cores precisas nos muros.

PNAB: quem financiou

A Política Nacional Aldir Blanc, Lei 14.399/2022, transfere anualmente R$ 3 bilhões da União a estados e municípios para editais culturais — continuidade da Lei Aldir Blanc emergencial da pandemia. Araras recebeu sua cota em 2025 e lançou editais para audiovisual, artes visuais, música e oficinas; o documentário sobre Erinho foi um dos projetos selecionados na categoria audiovisual, com produção local. A PNAB é o principal financiamento de cultura das cidades médias hoje.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o filme mostra o que a PNAB faz quando bem usada. "Três bilhões por ano do governo federal para cultura em todo o país. Em muitas cidades vira show de festa junina. Em Araras, virou documentário sobre um grafiteiro morto por bala perdida — feito por gente daqui, exibido no CEU do bairro, com Libras e exposição. É cultura que conta a cidade para a cidade. Mussa acertou no edital e no lançamento. Que os próximos editais da PNAB em Araras sigam esse padrão: memória local, produção local, público local", observa.

CEU José Olavo Paganotti: o lugar

O Centro de Educação Unificado José Olavo Paganotti, na zona leste, tem teatro, quadra, biblioteca e salas — equipamento cultural de bairro que a Secretaria de Cultura usa para exibições, oficinas e shows. Escolher o CEU, e não o Centro Cultural no centro, para a estreia foi decisão de território: o filme foi exibido perto de onde Erinho viveu, pintou e morreu.

Libras: acessibilidade na cultura

A tradução em Libras na sessão segue diretriz da Secretaria de Cultura de tornar eventos acessíveis a pessoas surdas — exigência da Lei Brasileira de Inclusão para eventos públicos e prática que Araras adotou em 2026 em exibições, shows e audiências. É detalhe que amplia o público e que o edital da PNAB valoriza.

"Reflorescer": a exposição

A exposição "Reflorescer", montada no saguão do CEU, reuniu telas, esboços, fotos de grafites e trabalhos de tatuagem de Erinho, além de obras de artistas que ele formou ou inspirou — grafiteiros jovens da zona leste. O nome remete à natureza recorrente nos murais do artista e à ideia de que a arte dele continua nos que ficaram.

DJ Poke e Johnny Camargo

O DJ Poke, da cena hip-hop de Araras, e o músico Johnny Camargo, amigos de Erinho, abriram a noite com set e apresentação — a trilha da cultura de rua da cidade, que o artista integrava. A abertura musical transformou a exibição em encontro da cena, com skatistas, grafiteiros, tatuadores e família.

Skate: a porta de entrada

Erinho chegou ao grafite pelo skate — como a maioria dos artistas urbanos da geração dos anos 2000, para quem pista, muro e som andavam juntos. Araras tem pista de skate no Parque Ecológico e nos bairros, e a cena local produziu skatistas competitivos e artistas; o esporte olímpico desde Tóquio 2020 ganhou reconhecimento, mas a cultura que o cerca — grafite, música, moda — segue à margem das políticas públicas. O documentário registra o Erinho skatista com imagens de sessões e amigos, e a Secretaria de Esportes planeja reforma da pista com mural em sua homenagem.

Tatuagem: o estúdio

Tatuador com estúdio próprio, Erinho tinha clientela na cidade e na região e usava o estúdio como ponto de encontro da cena — exposição de telas, venda de stickers, ensaio de rap. A tatuagem foi seu meio de vida e o que financiava o grafite não pago; após a morte, colegas tatuadores fizeram sessões beneficentes para a família, tradição da categoria. O documentário mostra o estúdio e os trabalhos como parte da obra, sem hierarquia entre muro e pele.

Grafite em Araras: a política

A Secretaria de Cultura mantém programa de murais em escolas, quadras e equipamentos públicos, com artistas locais remunerados por edital — Erinho foi um dos mais contratados. O grafite autorizado combate a pichação e forma artistas; o documentário reforça a política ao dar rosto a quem a executou.

Bala perdida: o problema

Mortes por bala perdida — disparos entre terceiros que atingem quem passa — são raras em cidades do porte de Araras e, por isso, marcam. O caso de Erinho, num sábado à tarde numa avenida movimentada, expôs o risco de armas em disputas de bairro e motivou cobranças por policiamento e por investigação. A Polícia Civil apurou; o desfecho não foi divulgado publicamente.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o documentário é a melhor coisa que a cultura de Araras fez em 2026. "Não é festival, não é show de fora. É a história de um menino da zona leste que virou artista, pintou a cidade e morreu pintando. O filme diz a Araras quem ela perdeu — e a mãe dele, os amigos, os alunos, viram o CEU cheio num sábado para ouvir. Mussa fez com dinheiro da PNAB o que dinheiro nenhum compra: memória. Os murais de Erinho ainda estão nas paredes. Agora tem filme para explicar quem fez", analisa.

O documentário "Navegar é preciso – A vida e as cores na arte de Erinho" foi exibido em 28 de fevereiro de 2026 no CEU José Olavo Paganotti, em Araras, com financiamento da Política Nacional Aldir Blanc. Erison Diego Francisco, o Erinho, morreu em setembro de 2024.