As secretarias municipais de Turismo e de Educação de Araras firmaram parceria para reorganizar e ampliar o uso pedagógico e turístico da Casa da Memória "Pedro Pessotto Filho", o museu que reúne o acervo documental e iconográfico sobre a história do município. A mudança inclui novo sistema de agendamento para grupos, com calendário definido; roteiros de preparação para os professores; atividades de avaliação após a visita; e indicadores que permitirão acompanhar quantas escolas e estudantes foram atendidos. As visitas guiadas passam a seguir cinco eixos temáticos, e o museu ganha novo horário de funcionamento. As informações são da Prefeitura de Araras.
"A Casa da Memória passa a ocupar papel central nessa estratégia, ao aproximar munícipes, estudantes e visitantes da história, da identidade e do patrimônio cultural da cidade", disse a secretária de Turismo, Anete Monteiro dos Santos Casagrande. A parceria prevê ainda a criação de um complemento curricular para professores de História e Geografia da rede municipal sobre História, Memória e Patrimônio de Araras, alinhado à Base Nacional Comum Curricular e ao Currículo Paulista.
Os cinco eixos das visitas guiadas
As visitas passam a ser organizadas em cinco roteiros temáticos, que o professor escolhe conforme o conteúdo trabalhado em sala. O primeiro é a emancipação política — a formação de Araras como município, no século 19, a partir das fazendas de café da região. O segundo, memória negra e abolicionismo, trata da presença da população escravizada na economia cafeeira e das lutas pela liberdade, tema que ganhou centralidade nos currículos escolares com a obrigatoriedade do ensino de história afro-brasileira.
O terceiro eixo, Modernismo de 22, conecta a cidade ao movimento cultural que transformou as artes brasileiras a partir da Semana de Arte Moderna — Araras tem vínculos com figuras e famílias ligadas àquele momento. O quarto, a ferrovia e a industrialização, conta como a chegada dos trilhos, no fim do século 19, transformou uma vila cafeeira em cidade com indústria, comércio e imigração. O quinto é a visita panorâmica ao acervo, para grupos que preferem uma visão geral.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a escolha dos eixos é o que dá densidade ao projeto. "Museu de cidade costuma ser vitrine de objetos antigos sem narrativa. Araras organizou o acervo em cinco histórias — a política, a negra, a modernista, a ferroviária, a geral — que são exatamente os capítulos que o professor de História precisa dar. A criança que visita o eixo 'memória negra e abolicionismo' sai sabendo que a cidade onde mora foi construída por gente escravizada. Isso é educação patrimonial de verdade, não passeio", avalia.
O que muda para as escolas
Até agora, a visita à Casa da Memória dependia de contato direto e de disponibilidade. O novo modelo cria um fluxo: o professor agenda por formulário eletrônico, recebe um roteiro de preparação para trabalhar com a turma antes da visita, leva os alunos ao museu em data marcada, e aplica uma atividade de avaliação depois. A Secretaria de Educação passa a ter indicadores — quantas escolas, quantos alunos, quais eixos — que permitem medir o alcance e ajustar a oferta.
A mudança também organiza a demanda: com calendário definido, a Casa da Memória consegue distribuir as turmas ao longo do ano letivo e evitar a concentração de visitas em datas comemorativas, quando o acervo fica lotado e a experiência se empobrece.
O roteiro de preparação é o elemento mais importante do ponto de vista pedagógico. Estudos sobre visitas a museus mostram que o aproveitamento depende do que acontece antes e depois: sem contextualização prévia, a visita vira dispersão; sem retomada posterior, o que foi visto se perde. O modelo de Araras institucionaliza os dois momentos.
Currículo complementar: história de Araras na sala de aula
A parceria prevê o desenvolvimento de um complemento curricular sobre História, Memória e Patrimônio de Araras para os professores de História e Geografia da rede municipal, em conformidade com a BNCC e o Currículo Paulista. Na prática, é um material que permite ao professor ensinar o conteúdo obrigatório — colonização, escravidão, república, industrialização — usando exemplos da própria cidade: a fazenda de café que existiu no bairro, a estação ferroviária, a família que fundou a indústria local.
História local é um dos recursos mais eficazes para engajar alunos, porque transforma o abstrato em concreto: o que aconteceu "no Brasil" aconteceu "aqui, nesta rua". Redes municipais que produzem material próprio de história local tendem a ver ganhos de interesse e de retenção.
Novo horário
A Casa da Memória passa a funcionar em horários distribuídos ao longo da semana: segundas-feiras, das 15h30 às 19h; terças, das 7h às 12h30; quartas, das 12h30 às 17h30; sextas, das 7h às 12h30 e das 13h às 17h30. A grade alterna manhãs e tardes e inclui um período noturno na segunda-feira, o que amplia o acesso para quem trabalha em horário comercial. O agendamento de grupos é feito pelo formulário eletrônico divulgado pela Prefeitura.
Turismo histórico: o potencial que Araras quer explorar
O segundo objetivo da parceria é o turismo. Araras tem, segundo a Secretaria de Turismo, potencial expressivo em turismo histórico — casarões, a estação ferroviária, o patrimônio das fazendas de café, a arquitetura do centro — que ainda é pouco explorado. A Casa da Memória, como ponto de partida organizado, com roteiros e horário regular, é a peça que faltava para estruturar esse produto.
O turismo histórico no interior paulista cresce com o público que busca cidades pequenas, gastronomia e patrimônio em roteiros de fim de semana. Cidades vizinhas, ligadas ao ciclo do café e à ferrovia, já trabalham esse nicho; Araras, na mesma região e com história semelhante, tem o mesmo potencial.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o museu é o começo, não o fim. "Turismo histórico precisa de três coisas: um lugar para começar, uma história para contar e alguém para contar. A Casa da Memória com cinco eixos e visita guiada resolve as três para o visitante que chega. O que falta é o resto do roteiro — a estação, os casarões, a fazenda que se pode visitar. Se a Secretaria de Turismo usar o museu como âncora e montar o circuito, Araras entra no mapa do interior. Se parar no museu, fica um bom equipamento educacional, o que já não é pouco", observa.
Pedro Pessotto Filho e o gabinete da prefeita
A Casa da Memória leva o nome de Pedro Pessotto Filho e abriga também o gabinete da prefeita Elaine Brambilla — foi ali que, nesta semana, ela reuniu as forças de segurança do município e, em agosto, recebeu representantes da Comunidade AI Brasil, que conheceram o acervo. A dupla função, museu e sede do Executivo, é incomum e simbólica: coloca a memória da cidade no centro físico do poder municipal.
Medir para melhorar
O detalhe dos indicadores merece destaque. Ao registrar quantas escolas e alunos visitam, quais eixos são escolhidos e como os professores avaliam a experiência, a Prefeitura cria uma base para decidir onde investir: um eixo pouco procurado pode precisar de novo material; uma escola que nunca agenda pode precisar de transporte. É gestão aplicada à cultura — e é o que diferencia um projeto que dura de uma inauguração que se esquece.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a parceria tem tudo para ser modelo. "Turismo e Educação juntos, roteiro antes, avaliação depois, currículo para o professor, indicador para o gestor. Não vi nada parecido em cidade do porte de Araras. O risco é o de sempre: a novidade durar um ano letivo e depois esfriar. Se em 2027 a Prefeitura publicar quantas escolas passaram pela Casa da Memória e o que os alunos aprenderam, o projeto vira política. É a prova que a cidade precisa dar", analisa.
O agendamento de visitas em grupo à Casa da Memória "Pedro Pessotto Filho" é feito pelo formulário eletrônico disponibilizado pela Prefeitura de Araras. O museu fica aberto ao público em geral nos horários informados, sem necessidade de agendamento para visitantes individuais.




