O Clube do Livro da Biblioteca Municipal "Martinico Prado", em Araras, completou um ano em agosto de 2026. O projeto, apoiado pela Secretaria Municipal de Cultura, reúne leitores geralmente na última quinta-feira de cada mês para uma noite de conversa e troca de ideias sobre um livro escolhido previamente — e, desde o primeiro encontro, em 9 de agosto de 2025, vem ganhando participantes. A obra mais recente discutida foi "Se Deus Me Chamar, Não Vou", de Mariana Salomão Carrara; a próxima, em 24 de setembro, às 19h, será "Impostora", de R. F. Kuang. Em paralelo, um clube do livro online, também apoiado pela secretaria, debateu em agosto "O Conto da Aia", de Margaret Atwood. As informações são da Prefeitura de Araras.

"Ao longo desse primeiro ano de atividade, o Clube do Livro vem se consolidando como um espaço de incentivo à leitura e de aproximação entre os leitores, fortalecendo o papel da Biblioteca Municipal como espaço de convivência, cultura e formação", disse a bibliotecária Priscila Araújo. Os encontros são gratuitos, abertos ao público e não exigem inscrição prévia.

Um ano de títulos

A estreia, em agosto de 2025, foi com "Canção para Ninar Menino Grande", de Conceição Evaristo — uma das mais importantes escritoras brasileiras contemporâneas, voz da literatura negra e feminina. A escolha deu o tom: o clube abrange variados tipos de leitura, alternando autores nacionais e estrangeiros, romances contemporâneos e clássicos modernos. "Se Deus Me Chamar, Não Vou", de Mariana Salomão Carrara, é romance brasileiro recente, premiado; "O Conto da Aia", de 1985, é a distopia canadense que inspirou a série "The Handmaid's Tale" e venceu o Arthur C. Clarke Award; "Impostora", de R. F. Kuang, é sátira sobre o mercado editorial e a apropriação cultural, sucesso internacional de 2023.

É um cardápio que dialoga com o leitor jovem — que conhece Kuang e Atwood pelas redes e pelas séries — e com o leitor mais experiente, que encontra Evaristo e Carrara. A variedade é parte da estratégia de atrair públicos diferentes para a mesma mesa.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o clube faz o que biblioteca pública deveria fazer sempre. "Biblioteca não é depósito de livro; é lugar onde gente se encontra por causa de livro. Um clube mensal, gratuito, sem inscrição, com curadoria que vai de Conceição Evaristo a R. F. Kuang, é exatamente isso. Um ano de continuidade, em cidade de 130 mil habitantes, com participação crescente, é resultado que muita capital não tem. A bibliotecária tem razão em falar em consolidação", avalia.

Os livros, um a um

"Canção para Ninar Menino Grande", de Conceição Evaristo, abriu o clube em agosto de 2025. A obra acompanha um homem negro e suas relações com as mulheres de sua vida, e é exemplo da "escrevivência" — o conceito criado pela autora mineira para a escrita que nasce da experiência vivida da população negra brasileira. "Se Deus Me Chamar, Não Vou", de Mariana Salomão Carrara, é romance premiado que mistura humor e melancolia na história de uma mulher que decide não morrer ainda; a autora é paulistana e defensora pública, e sua prosa curta e irônica tem conquistado leitores jovens.

"O Conto da Aia", de Margaret Atwood, discutido na versão online, é um dos romances mais lidos do século 21 — distopia sobre uma teocracia que reduz as mulheres a funções reprodutivas, escrita em 1985 e reencontrada por novas gerações com a série de televisão. "Impostora", de R. F. Kuang, fecha o ciclo em setembro: a história de uma escritora branca que rouba o manuscrito de uma amiga asiática morta e o publica como seu, sátira feroz sobre mercado editorial, redes sociais e apropriação cultural. Quatro livros, quatro vozes femininas, quatro debates que não terminam quando a reunião acaba.

Como funciona um clube de leitura — e por que dá certo

A fórmula é simples: um livro escolhido com antecedência, uma data fixa, um mediador que abre a conversa e um grupo disposto a discordar. O que faz o modelo funcionar é o compromisso — saber que haverá um encontro faz o leitor terminar o livro — e a diversidade de leituras: o mesmo capítulo lido por uma professora aposentada, um estudante de 17 anos e um funcionário do comércio gera três interpretações, e é no confronto delas que o clube ensina. Bibliotecas públicas são o lugar ideal porque têm o acervo, o espaço e a neutralidade: ninguém precisa comprar nada nem pertencer a nada para participar.

O clube online: "O Conto da Aia" pelo Google Meet

A versão virtual do clube, também apoiada pela Secretaria de Cultura, discutiu "O Conto da Aia" em 29 de agosto, sábado, às 14h, pelo Google Meet, com inscrição gratuita por formulário. O romance de Margaret Atwood se passa na república de Gilead, um futuro próximo em que os Estados Unidos foram substituídos por uma teocracia sem jornais, livros ou filmes; as mulheres perdem todos os direitos e são divididas em categorias, e a protagonista, Offred, é uma "aia" — existe unicamente para procriar, após uma catástrofe que tornou estéril grande parte da população.

O formato online amplia o alcance para quem não pode se deslocar à biblioteca à noite — mães, trabalhadores em turno, moradores de bairros distantes — e permite a participação de leitores de outras cidades. A combinação presencial e virtual, com títulos diferentes, dobra a oferta sem dobrar o custo.

Como participar

O clube presencial se reúne na Biblioteca Municipal "Martinico Prado", em geral na última quinta-feira do mês, às 19h. Não há inscrição nem taxa; basta ler o livro — ou parte dele — e comparecer. Os títulos e as datas dos próximos encontros são divulgados nas redes sociais e no site da Prefeitura e da biblioteca. O clube online exige inscrição prévia pelo formulário divulgado pela Secretaria de Cultura, para envio do link da reunião.

Biblioteca Martinico Prado: o equipamento

A Biblioteca Municipal leva o nome de Martinico Prado, figura da elite cafeeira paulista do século 19 ligada à história de Araras. Além do acervo de empréstimo, mantém atividades como a Hora de Leitura, integrada à programação mensal da Secretaria de Cultura, e serve de espaço para lançamentos de livros e eventos literários. O Clube do Livro é, hoje, sua atividade de maior regularidade — e a que mais visivelmente transforma o prédio em ponto de encontro.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a biblioteca é um ativo subestimado. "Toda cidade tem biblioteca municipal; poucas têm biblioteca viva. A diferença é gente — uma bibliotecária que organiza clube, uma secretaria que apoia, um público que volta. Araras tem os três. O próximo passo é o óbvio: acervo atualizado com os títulos que o clube discute, para que quem não tem dinheiro para comprar 'Impostora' consiga emprestar. Clube do livro sem livro na estante é clube de quem pode pagar", observa.

Leitura no Brasil: o cenário que o clube enfrenta

Pesquisas nacionais sobre hábitos de leitura mostram que o brasileiro lê pouco e que a proporção de leitores vem caindo, sobretudo entre adultos jovens, disputados por telas e redes. Clubes de leitura são uma das respostas que mais funcionam: criam compromisso — o encontro marcado —, socialização e a chance de conversar sobre o que se leu, o que transforma a leitura solitária em experiência coletiva. É por isso que se multiplicaram em livrarias, escolas e, cada vez mais, em bibliotecas públicas.

Cultura como rotina em Araras

O Clube do Livro integra uma agenda cultural municipal que, em setembro, inclui o Garimpo Urbano, o Festival Cultural da Infância, o Cineclube Entretrilhos com filmes de Eduardo Coutinho, o Arte no Coreto e as atividades permanentes do Centro Cultural — coral, orquestra de violeiros, aulas de música e dança. É a mesma lógica: atividades regulares, gratuitas, que formam público e ocupam os equipamentos da cidade todo mês, e não apenas em datas festivas.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o aniversário merece ser medido. "Um ano, doze encontros, participação crescente. Ótimo. Agora a Secretaria de Cultura deveria dizer quantas pessoas passaram pelo clube, quantos livros foram emprestados por causa dele, quantos participantes vieram pela primeira vez à biblioteca. São números simples que transformam um projeto simpático em política pública com resultado. E que ajudam a justificar o orçamento do ano que vem", analisa.

O próximo encontro do Clube do Livro da Biblioteca Municipal "Martinico Prado" será em 24 de setembro, às 19h, com a discussão de "Impostora", de R. F. Kuang. A participação é gratuita e aberta ao público.