O clube do livro online apoiado pela Secretaria Municipal de Cultura de Araras discute em agosto "O Conto da Aia", de Margaret Atwood. O encontro é no dia 29, sábado, às 14h, pelo Google Meet, com inscrição por formulário; a participação é gratuita e aberta ao público. A Secretaria também mantém clube presencial, que discute no dia 27, quinta-feira, às 19h, "Se Deus me chamar não vou", de Mariana Salomão Carrara, na Biblioteca Municipal Martinico Prado — também gratuito e aberto. As informações são da Prefeitura de Araras.
Escrito em 1985, "O Conto da Aia" venceu o Arthur C. Clarke Award e inspirou a série "The Handmaid's Tale". A obra se passa num futuro próximo, na república de Gilead — o que foi os Estados Unidos —, onde não existem jornais, livros nem filmes, criminosos são fuzilados e expostos no Muro, e as mulheres, sem direitos, são divididas em categorias com funções específicas no Estado.
O livro: Offred e Gilead
À protagonista, Offred, coube a categoria de aia: pertencer ao governo e existir unicamente para procriar, depois que uma catástrofe tornou estéril grande parte da população. Vigiada dia e noite e privada dos direitos mais básicos, seu destino ainda é melhor que o das "não-mulheres" — as que não podem ter filhos, as homossexuais, viúvas e feministas —, condenadas a trabalhos forçados nas colônias, onde a radiação é mortal. Atwood construiu a distopia com base em práticas históricas reais, sem inventar nenhuma — o que dá ao livro sua força de advertência.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a escolha do livro diz algo sobre o clube. "'O Conto da Aia' é distopia feminista de 1985 que virou série global e símbolo de protesto — a touca branca e o vestido vermelho aparecem em manifestação do Brasil à Polônia. Uma Secretaria de Cultura de cidade do interior colocar isso na pauta do clube do livro, em agosto, mês da Lei Maria da Penha, é escolha editorial consciente. Não é livro fácil nem neutro. É o tipo de leitura que gera conversa — e clube do livro existe para conversar. Araras está tratando o leitor como adulto", avalia.
Online e presencial: dois clubes
A Secretaria de Cultura mantém dois formatos: o online, pelo Google Meet, que permite participação de quem não pode se deslocar — ou de quem mora fora da cidade —, e o presencial, na Biblioteca Martinico Prado, com o encontro físico em torno dos livros. Os títulos são diferentes em cada um, o que dobra a oferta de leitura discutida por mês. A inscrição por formulário no online serve para enviar o link; no presencial, basta comparecer.
"Se Deus me chamar não vou": o presencial
O clube presencial discute "Se Deus me chamar não vou", romance de Mariana Salomão Carrara, escritora e defensora pública paulista, finalista de prêmios como o Jabuti e o São Paulo de Literatura. A obra trata de uma mulher que perde a filha e, na negação do luto, mantém a rotina como se a menina estivesse viva — narrativa em primeira pessoa sobre perda, maternidade e fé. É literatura brasileira contemporânea, em contraste com o clássico canadense do clube online.
Biblioteca Martinico Prado: o espaço
A Biblioteca Municipal Martinico Prado, no centro de Araras, é o equipamento cultural mais antigo da cidade — leva o nome do senador e fazendeiro Martinho Prado Júnior, figura da história local — e abriga acervo geral, infantil e de referência, além de programação de contação de histórias, oficinas e o clube do livro. O encontro presencial das 19h de quinta é uma das ações que buscam manter a biblioteca como espaço de convivência, não só de empréstimo.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o clube é política cultural de custo zero. "Um clube do livro custa um funcionário para mediar, um link do Google Meet e uma sala de biblioteca. Rende leitores, conversa, comunidade. Araras faz dois por mês — um clássico internacional online, um brasileiro contemporâneo presencial. É curadoria. Enquanto a discussão nacional é sobre bibliotecas fechando, uma cidade de 135 mil habitantes coloca Margaret Atwood na agenda de sábado à tarde. O secretário Mussa e a equipe da Cultura entenderam que cultura não é só show na praça — é gente lendo o mesmo livro e discordando", observa.
Por que Atwood em 2026
"O Conto da Aia" ganhou nova vida a partir de 2017, com a série da Hulu e com o uso de sua iconografia em protestos por direitos das mulheres; Atwood publicou a continuação, "Os Testamentos", em 2019, vencedora do Booker Prize. Em 2026, com debates sobre direitos reprodutivos em vários países e o aniversário de 20 anos da Lei Maria da Penha no Brasil, o livro segue como referência — e sua discussão num clube público de leitura é oportunidade de tratar do tema pela literatura, não pelo noticiário.
Margaret Atwood: a autora
Canadense nascida em 1939, Margaret Atwood é uma das escritoras mais premiadas em atividade — dois Booker Prizes, o Arthur C. Clarke, o Franz Kafka — e autora de mais de 50 livros entre romances, poesia e ensaios. "O Conto da Aia" é sua obra mais lida; "Vulgo Grace", "O Assassino Cego" e "Oryx e Crake" completam a lista dos mais conhecidos. Atwood recusa o rótulo de ficção científica para Gilead e prefere "ficção especulativa": tudo o que acontece no livro, diz, já aconteceu em algum lugar. É a advertência que faz do romance leitura permanente.
Como funciona o encontro
No clube online, o mediador da Secretaria de Cultura abre com contexto sobre a obra e a autora, propõe questões — o que Gilead diz sobre o presente, a voz de Offred, o final aberto — e conduz a conversa entre os inscritos por cerca de uma hora e meia. Não há prova nem exigência de leitura integral; quem leu parte participa. O formato presencial, na biblioteca, segue a mesma lógica em roda. Os títulos são escolhidos com antecedência de um mês, para dar tempo de leitura, e os exemplares ficam disponíveis para empréstimo.
Clubes de leitura: a tendência
Clubes do livro cresceram no Brasil na última década, impulsionados por redes sociais e pela pandemia, que popularizou o formato online. Livrarias, bibliotecas, editoras e secretarias de cultura os mantêm como estratégia de formação de leitores e de circulação de títulos. O modelo de Araras — público, gratuito, com dois formatos — é o que biblioteconomia recomenda: baixa barreira de entrada e mediação qualificada.
Como participar
Para o clube online, a inscrição é por formulário divulgado pela Secretaria de Cultura nas redes e no site da Prefeitura; o link do Google Meet é enviado aos inscritos. O encontro é no sábado, 29 de agosto, às 14h. Para o presencial, basta ir à Biblioteca Martinico Prado na quinta, 27, às 19h. Não é necessário ter lido o livro inteiro para participar, embora seja recomendado; os exemplares estão disponíveis na biblioteca.
Leitura em Araras: o contexto
A cidade tem, além da biblioteca municipal, bibliotecas escolares na rede municipal e estadual, a biblioteca da FHO e livrarias no centro. A Secretaria de Cultura promove feira do livro, contação de histórias nas escolas e o clube. A formação de leitores é um dos eixos do plano municipal de cultura — e o clube é sua face adulta.
O que vem: setembro
A Secretaria de Cultura divulga o título do mês seguinte após cada encontro, alternando clássicos, contemporâneos e autores brasileiros. Sugestões dos participantes são consideradas. O clube online já discutiu títulos de ficção científica, romance e não ficção; o presencial privilegia literatura nacional.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a notícia é pequena e significativa. "Uma Prefeitura que publica no site oficial a sinopse de 'O Conto da Aia' — com o Muro, as colônias, as não-mulheres — está dizendo que a leitura importa e que o tema não assusta. Num ano eleitoral, em que tudo vira polêmica, a Secretaria de Cultura de Araras escolheu o livro mais politicamente carregado da literatura contemporânea e o colocou no clube de sábado. Sem ruído. É maturidade cultural de uma cidade que tem biblioteca centenária e a usa. Que apareçam muitos no Meet", analisa.
O clube do livro online da Secretaria Municipal de Cultura de Araras discute "O Conto da Aia" em 29 de agosto de 2026, às 14h, pelo Google Meet. O clube presencial discute "Se Deus me chamar não vou" em 27 de agosto, às 19h, na Biblioteca Municipal Martinico Prado.




