Estudantes de quatro escolas estaduais de Araras participaram na segunda-feira, 18 de maio, no Ginásio de Esportes "Nelson Rüegger", da palestra de abertura da campanha Maio Laranja, dedicada ao combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. A iniciativa é parceria das secretarias de Assistência Social, Educação e Esportes, com apoio da Câmara Municipal, e a palestra foi ministrada pelos guardas municipais da equipe Anjos da Guarda, que trataram de prevenção e denúncia de abusos e assédios — incluindo os que acontecem em ambiente virtual. Alunos das escolas estaduais Dr. Cesário Coimbra, Profª Judith Ferrão Legaspe, Profª Yolanda Salles Cabianca e Prof. Vicente Ferreira dos Santos expuseram cartazes sobre o tema, com balões laranja, música e a presença do Robozão. As informações são do portal Notícias de Araras.
O então prefeito Irineu Maretto acompanhou a abertura, ao lado dos secretários Mirian Vanessa Pires Franzini (Assistência Social), Bruno Roza (Educação), Luiz Paulo Franco (Esportes), Raquel Metzner (Meio Ambiente e Agricultura) e Eduarda Peccinatti (Comunicação), dos presidentes do TCA, Luiz Viganó, e do Saema, Rubens Franco Júnior, dos vereadores Lucio Casabela (Podemos) e Ana Júlia Casagrande (PSD), do Tiro de Guerra, do Conselho Tutelar e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA).
Os números que justificam a campanha
Segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, citado na abertura, o país registrou 87.545 estupros em um ano — 77% das vítimas com menos de 14 anos, 66% dos casos dentro de casa e 46% cometidos por familiares. São os dados que definem o problema: a violência sexual contra crianças é majoritariamente doméstica, praticada por quem a criança conhece e confia, e por isso raramente denunciada. É a razão de a campanha ser dirigida às próprias crianças e adolescentes, nas escolas: quem sofre precisa saber que é abuso, que não é culpa sua e a quem contar.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o formato de Araras acerta o alvo. "Palestra de guarda municipal para adolescente, em ginásio, com balão e Robozão, parece leve — e é de propósito. O abusador, em 46% dos casos, é da família; a criança não vai denunciar na delegacia, vai contar para a professora ou para o guarda que ela conhece do Anjos da Guarda. A campanha existe para criar esse adulto de confiança fora de casa. E incluir o abuso virtual — o adulto que se passa por adolescente no jogo online — é reconhecer que a porta de entrada mudou", avalia.
Anjos da Guarda: quem são
O projeto Anjos da Guarda, da Guarda Civil Municipal de Araras, é a equipe que atua nas escolas com palestras, atividades educativas e presença preventiva — incluindo a apresentação dos cães do Canil da GCM aos alunos. Os guardas do projeto são treinados para falar com crianças e adolescentes sobre bullying, drogas, trânsito, violência doméstica e, no Maio Laranja, abuso sexual. Em maio, a equipe recebeu um veículo novo, um Fiat Pulse, por emenda parlamentar, para ampliar o alcance nas escolas. É o braço da segurança pública municipal que trabalha com prevenção, não com repressão.
Duas semanas de programação
A campanha se estende por duas semanas, com ações para informar, conscientizar e estimular a reflexão. A programação inclui o lançamento de conteúdo digital pela Assistência Social e pela Segurança Pública; passeatas de conscientização nas escolas municipais Padre Hercílio Bertolini e Profª Maria Terezinha Ulson e na estadual Dr. Maximiliano Baruto; atividades nos Cras Irmã Annadora Sironi, Brasílio Penteado Castro e José Ometto, com os grupos do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos — em parceria com as organizações AMCRA, OSAF e Oratório Dom Bosco —, os grupos do PAIF e do Bolsa Família; e abordagem do tema, com distribuição de material informativo, durante os jogos do JEMA, que retomaram na mesma segunda-feira.
Por que nos Cras
Os Centros de Referência de Assistência Social atendem as famílias em vulnerabilidade — as mesmas em que, estatisticamente, o risco de violência doméstica e de abuso é maior, pela combinação de pobreza, moradia precária, uso de álcool e drogas e ausência de rede de apoio. Levar o Maio Laranja aos grupos de convivência e ao PAIF é falar diretamente com as mães, os avós e as crianças que o serviço já acompanha, em ambiente de confiança. É também onde as assistentes sociais identificam sinais de abuso e encaminham ao Conselho Tutelar e ao Creas, que atende as vítimas.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a rede é o que faz a campanha funcionar depois de maio. "Palestra sensibiliza; o que protege é a rede que recebe a denúncia. Araras tem Conselho Tutelar, CMDCA, Creas, Anjos da Guarda, Patrulha Maria da Penha, DDM. O Maio Laranja é o mês em que essa rede aparece junta para a criança. O teste é junho: quando a menina que ouviu a palestra contar para a professora, a professora precisa saber para quem ligar, e o Conselho Tutelar precisa atender no mesmo dia. Campanha boa é a que aumenta a denúncia — e a cidade deveria publicar quantas chegaram", observa.
Abuso virtual: a nova fronteira
A inclusão dos crimes em ambiente virtual na palestra reflete o cenário nacional: relatório do Unicef divulgado em 2026 aponta que um em cada cinco adolescentes brasileiros já sofreu abuso sexual online, com redes sociais e aplicativos de mensagens como principal espaço de exploração e jogos online em segundo lugar — e com o agressor conhecido da vítima em quase metade dos casos. O aliciamento começa com conversa, presente virtual, pedido de foto; a extorsão vem depois. Ensinar o adolescente a reconhecer o padrão e a bloquear e denunciar é, hoje, tão importante quanto ensiná-lo sobre o abuso presencial.
Como denunciar
Para denunciar abusos contra crianças e adolescentes, o canal municipal é o 125 — Coordenação de Denúncias de Violação dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cisdeca) —, e o nacional é o Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que encaminha o caso ao Conselho Tutelar mais próximo. A denúncia pode ser anônima. Em situação de flagrante ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190 ou a Guarda Municipal. Escolas têm dever legal de comunicar suspeitas ao Conselho Tutelar.
18 de maio: a origem da data
O Maio Laranja nasce do 18 de Maio — Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, instituído por lei federal em 2000 em memória de Araceli Cabrera Crespo, menina de oito anos sequestrada, violentada e morta em Vitória, no Espírito Santo, em 1973, num crime que ficou impune. A data mobiliza escolas, conselhos e prefeituras em todo o país, e o laço laranja é seu símbolo. Em Araras, a abertura coincidiu com o dia 18, no Nelson Rüegger — o mesmo ginásio das finais do JEMA, o que garantiu a presença de centenas de estudantes.
O papel da Câmara e dos conselhos
O apoio da Câmara Municipal e a presença de vereadores, do Conselho Tutelar e do CMDCA na abertura sinalizam que a campanha é política de município, não de uma secretaria. O CMDCA, conselho paritário que define as diretrizes da política para a infância e gere o Fundo Municipal dos Direitos da Criança, é o órgão que pode transformar a mobilização de maio em orçamento: capacitação de conselheiros tutelares, equipe do Creas, programas de escuta protegida — a sala em que a criança vítima presta depoimento uma única vez, sem revitimização, prevista na Lei 13.431 de 2017.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Maio Laranja é medido em junho. "A campanha faz o que deve: coloca o tema na frente de mil adolescentes e de todas as autoridades da cidade. O que define se valeu é o que acontece com a denúncia que ela gera — quantas chegaram ao 125, quantas viraram atendimento no Creas, quantas viraram inquérito. Cidade que faz Maio Laranja e não tem sala de escuta protegida está fazendo metade. Araras deveria publicar o balanço de denúncias de maio e junho, e o CMDCA deveria usar esse número para pedir orçamento. Laranja é a cor; o número é a prova", analisa.
A programação completa do Maio Laranja em Araras está disponível nos canais da Prefeitura. Denúncias de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes podem ser feitas pelo 125 (Cisdeca) e pelo Disque 100, de forma anônima.



