Em coletiva de imprensa na quarta-feira (14 de janeiro), no Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita, o prefeito de Araras, Irineu Maretto, fez a prestação de contas do primeiro ano de governo e anunciou os projetos de 2026. Sobre as dívidas herdadas, disse ter quitado cerca de R$ 64 milhões de dívida fundada — empréstimos e parcelamentos — e R$ 23 milhões de restos a pagar vencidos: "Todas as dívidas de 2022 foram quitadas, e seguiremos organizando os débitos de 2023 e 2024. Em apenas um ano, já pagamos mais de R$ 87 milhões de dívidas deixadas e parcelamentos. Também reduzimos os gastos da prefeitura com renegociação de contratos e devolução de imóveis alugados." As informações são do portal Notícias de Araras.
Segundo o prefeito, 2026 seria o ano de destaque para Saúde e Educação: o programa Zera Fila da Saúde, viabilizado por emendas parlamentares, para acabar com filas de exames e cirurgias represadas desde 2019, com cerca de R$ 14 milhões no setor; uniformes para todos os alunos da rede; kits de material escolar; a licença de instalação da Estação de Tratamento de Esgoto; e a construção de um Paço Municipal.
R$ 87 milhões: a herança e o pagamento
A dívida fundada de R$ 64 milhões refere-se a empréstimos e parcelamentos de longo prazo — Profut, Finisa anteriores, precatórios — assumidos por gestões passadas; os R$ 23 milhões de restos a pagar são despesas empenhadas e não pagas até 31 de dezembro de anos anteriores, muitas vencidas, que travavam fornecedores e o crédito do município. Quitar as de 2022 no primeiro ano e organizar as de 2023 e 2024 é o que a Prefeitura chamou de "colocar a casa em ordem" — condição para contratar o Finisa das pontes e do ginásio e para receber emendas com contrapartida.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a coletiva de janeiro ganhou outro peso em retrospecto. "Maretto apresentou o primeiro ano e o plano do segundo: dívida paga, saúde com R$ 14 milhões, uniforme para 12 mil alunos, ETE licenciada, Paço no terreno do GEMA. Cinco meses depois, morreu. O que ele anunciou em janeiro virou a agenda que Elaine Brambilla herdou — os uniformes foram entregues em junho, o Zera Fila rodou, a UTI da Santa Casa saiu, a ETE está licitada. É raro ver prestação de contas que se torna testamento administrativo. A de 14 de janeiro é. Quem quiser saber o que Araras está fazendo em setembro deve ler o que foi dito em janeiro", avalia.
Zera Fila: cirurgias represadas desde 2019
O Zera Fila da Saúde, viabilizado por emendas, previa cirurgias de média e alta complexidade em ortopedia, otorrinolaringologia, ginecologia, urologia e pediatria, neurocirurgias, exames oncológicos de alta complexidade e transporte de pacientes de radioterapia — todos em parceria com a Santa Casa de Araras. Somadas as emendas e a contrapartida municipal, cerca de R$ 14 milhões em saúde em 2026, incluindo próteses dentárias e auditivas, reestruturação de unidades e equipamentos. "Estamos viabilizando emendas parlamentares e convênios importantes para Araras. Agradecemos todos que ajudaram a cidade com esses valores que vão zerar as filas de cirurgias represadas", disse Maretto.
Uniformes: 28 mil kits, R$ 11,5 milhões
Após três anos sem entrega, a Prefeitura investiria R$ 11.547.200 em 196 mil peças — 28 mil kits com duas camisetas de manga curta, uma regata, dois shorts, uma calça, uma jaqueta de tactel e uma peluciada —, atendendo os mais de 12 mil alunos da rede por dois anos, com nova roupagem em cores mais escuras, a pedido da comunidade escolar. A entrega ocorreu em junho. É a maior compra de uniformes da história da rede municipal e uma das promessas de campanha mais visíveis.
Material escolar: 25 mil kits por dois anos
Cerca de R$ 2 milhões em mais de 25 mil kits de material escolar, para 2026 e 2027, divididos em cinco tipos: creche, berçário e maternal; pré-escola; fundamental 1; fundamental 2; e EJA — com giz, caneta, lápis, borracha, apontador, estojo, pasta, caderno, tinta, massinha e cola conforme a fase. A aquisição estava em licitação em janeiro. Somados uniforme e material, a Prefeitura eliminou o custo de início de ano letivo para famílias de 12 mil alunos.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a ETE é o item mais importante e menos comentado. "Uniforme e cirurgia aparecem; esgoto não. Mas a licença de instalação da Estação de Tratamento de Esgoto, obtida na Cetesb em 2025 depois de anos, é o que permite licitar a conclusão de uma obra parada — e é o que Maretto disse na coletiva: sem tratar o esgoto, Araras não recebe empresa nova sem prejudicar o ambiente. A ETE é condição de crescimento industrial e de licença ambiental para tudo o que vier. Negociar com a Caixa e com o Desenvolve SP para bancar é o trabalho invisível que define se a cidade cresce nos próximos dez anos", observa.
ETE: a licença que faltava
A licença de instalação da Estação de Tratamento de Esgoto, obtida na Cetesb em 2025, foi apresentada como conquista central: só com a documentação em dia é possível licitar as obras de readequação e conclusão da ETE, iniciada e interrompida em gestões anteriores. "Já negociamos com a Caixa Econômica Federal, fomos atrás de verba do programa Desenvolve São Paulo, estamos fazendo de tudo para avançarmos com uma solução definitiva e eficiente para o tratamento do esgoto de Araras. A licitação deve acontecer entre fevereiro e março", disse o prefeito. Tratar corretamente o esgoto, argumentou, permite à cidade voltar a crescer e receber empreendimentos.
Paço Municipal: o terreno do GEMA
A Prefeitura trabalhava desde março de 2025 num levantamento de áreas e imóveis municipais sem uso: os que não servissem a Esporte, Saúde e Educação seriam vendidos para capitalizar o município e construir um Paço Municipal — sede administrativa própria, que permitiria devolver imóveis alugados e centralizar o atendimento. O local escolhido é a área de 22 mil m² da antiga sede do Grêmio Esportivo Municipal Ararense, o GEMA, ao lado do Clube dos Bancários, no bairro Campinho, sob intervenção administrativa desde abril de 2025 — o clube, gerido pela Associação dos Servidores, estava sem estatuto regularizado, sem gestor e com dívida de mais de R$ 2 milhões em IPTU e água. Projeto de lei para devolução do imóvel tramitava na Câmara.
Economia com aluguéis: o CAM como exemplo
A devolução de imóveis alugados, citada por Maretto, materializou-se em março com a readequação do CAM Antonio Casadei, que passou a abrigar três secretarias e o Fuss, com economia declarada de mais de R$ 1,3 milhão por ano. O Paço Municipal seria a versão definitiva dessa lógica: todas as secretarias num prédio próprio, sem aluguel. A venda de áreas ociosas para financiá-lo é o modelo que gestões anteriores discutiram sem executar.
Santa Casa: a parceira
Toda a agenda de saúde de 2026 — Zera Fila, UTI, cirurgias — passa pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Araras, hospital de referência da cidade e da região. A coletiva reforçou "o trabalho conjunto entre a Prefeitura e a Irmandade": o município leva emendas e contrapartida; a Santa Casa entra com profissionais, centro cirúrgico e leitos. É o arranjo que fez a UTI ganhar oito leitos e as cirurgias saírem do papel.
Interlocução: de onde vem o dinheiro
Maretto atribuiu os recursos à "interlocução política" com deputados, senadores e governos estadual e federal — emendas de Saulo Pedroso, Marcos Pontes, Solange Freitas, Delegada Graciela, entre outros, que financiaram UTI, cirurgias e exames. É o modelo de financiamento de cidade média: o prefeito viaja, pede, recebe emenda com contrapartida. Em ano eleitoral, a liberação cessa em julho — o que a Estrada do Canil sentiu.
O que se cumpriu até setembro
Uniformes entregues em junho; medicamentos da Remume ampliados em março; UTI da Santa Casa em obras; Zera Fila com cirurgias e exames desde janeiro; próteses distribuídas; CAM reestruturado; Tributos na nuvem; Estrada do Canil retomada. Pendentes: a licitação da ETE, o Paço Municipal e a venda das áreas. A prefeita Elaine Brambilla assumiu a lista.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a coletiva de janeiro é o documento para cobrar a gestão em dezembro. "Maretto disse, com número: R$ 87 milhões pagos, R$ 14 milhões em saúde, R$ 11,5 milhões em uniforme, R$ 2 milhões em material, ETE licenciada, Paço no GEMA. Morreu em junho. A cidade tem o direito de perguntar em dezembro o que saiu — e a resposta, até agora, é a maior parte. O que ficou — ETE licitada, Paço, venda de áreas — é o que Elaine Brambilla precisa responder. A prestação de contas de um prefeito que não terminou o mandato virou o roteiro de quem terminou. Isso é raro e é bom para Araras", analisa.
A prestação de contas do primeiro ano de governo do prefeito Irineu Maretto foi apresentada em coletiva em 14 de janeiro de 2026, no Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita, em Araras. O prefeito morreu em 25 de junho de 2026; a vice, Elaine Brambilla, assumiu o mandato.



