A Avenida Ignácio Zurita Neto, na Vila Michielin — atrás do supermercado Savegnago —, ficou interditada até a sexta-feira (28) para a manutenção de uma boca de lobo. O serviço, executado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Obras Públicas, começou na quarta-feira (26) e faz parte de um pacote de intervenções para melhorar o sistema de drenagem e as tubulações de águas pluviais da cidade. A Prefeitura informou ainda que já está em andamento um processo licitatório para contratar uma empresa especializada nesse tipo de serviço, segundo o portal Notícias de Araras.

"Ambas as bocas de lobo geravam risco para a população e trabalhamos, o mais rápido que conseguimos, para realizar as intervenções, garantindo mais segurança para quem acessa essas vias", afirmou o secretário de Obras, Celso Canassa, referindo-se também a outra boca de lobo reparada recentemente na Rua Edmir Magdalon, no Jardins de Samantha III. A próxima frente, de acordo com o cronograma da secretaria, será a boca de lobo da Rua Tereza Cristina, no Jardim Abolição, próximo ao córrego Andrezinho.

O que é uma boca de lobo e por que ela quebra

A boca de lobo é a abertura no meio-fio ou na sarjeta por onde a água da chuva entra na rede de galerias subterrâneas. É a porta de entrada do sistema de drenagem urbana — e, por isso, o ponto mais exposto ao desgaste. Recebe o impacto de rodas de veículos, acumula sedimentos e lixo carregados pela chuva e, com o tempo, tem a estrutura de concreto ou alvenaria comprometida. Quando uma boca de lobo se rompe ou afunda, abre-se um buraco na via — risco direto para carros, motos e pedestres — e a água que deveria escoar passa a se acumular na rua, provocando alagamentos localizados.

Reparar uma boca de lobo exige abrir a via, reconstruir a caixa de captação, refazer a ligação com a galeria e recompor o pavimento — trabalho que, em uma avenida de bairro, significa interdição de alguns dias, como na Ignácio Zurita Neto.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o tema é mais relevante do que parece. "Boca de lobo quebrada é a obra mais invisível e mais urgente de uma cidade. Ninguém percebe até o carro cair no buraco ou a rua virar rio na primeira chuva forte. Araras está entrando na primavera com El Niño previsto, chuva acima da média no interior paulista. Cada boca de lobo consertada agora é um alagamento a menos em novembro", avalia.

O pacote de drenagem: do Centro Esportivo ao Jardim Abolição

A intervenção na Vila Michielin não é isolada. Há cerca de um mês, as equipes da Secretaria de Obras substituíram uma tubulação que se rompeu no Centro Esportivo Ruy Branco de Miranda, no bairro Parque das Árvores. No local, foram trocados três tubos de 1.000 milímetros — um metro de diâmetro — das redes de drenagem de águas pluviais, esgoto e galerias subterrâneas, além da construção de uma caixa cega, estrutura de inspeção que permite acesso futuro à rede sem nova escavação.

Tubos de um metro de diâmetro são de grande porte para uma rede municipal e indicam um ponto de concentração de vazão — típico de galerias que recebem a água de vários bairros a montante. O rompimento de uma estrutura desse tamanho, se não reparada, pode comprometer o escoamento de uma região inteira nas chuvas.

A sequência de intervenções — Centro Esportivo, Jardins de Samantha III, Vila Michielin e, em seguida, Jardim Abolição — desenha um mapa de pontos críticos da drenagem de Araras que a secretaria vem atacando um a um, com equipe própria.

Da equipe própria à empresa especializada

O secretário Celso Canassa informou que as intervenções vêm sendo realizadas pela própria equipe da Secretaria de Obras, mas que já está em andamento um processo licitatório para a contratação de uma empresa especializada no serviço. A mudança de modelo tem lógica operacional: equipes municipais atendem emergências, mas têm capacidade limitada para executar um programa de manutenção preventiva em escala — dezenas de bocas de lobo, quilômetros de galerias, limpeza periódica antes da temporada de chuvas.

Uma empresa contratada por licitação, com equipamento específico — caminhões de hidrojateamento para desobstrução de galerias, por exemplo — e equipe dedicada, permite planejar a manutenção por cronograma, em vez de responder apenas a rompimentos. É o mesmo movimento que o Saema fez com a dedetização da rede de esgoto: sair da lógica de emergência para a de programa.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a licitação é o passo decisivo. "Consertar boca de lobo com equipe da prefeitura é apagar incêndio. Contratar empresa para limpar e manter a rede inteira antes da chuva é prevenção. A diferença de custo é grande, mas a diferença de resultado é maior. Se a licitação sair antes de novembro, Araras entra no verão com a drenagem cuidada. Se atrasar, a equipe própria vai continuar correndo atrás de buraco", observa.

Drenagem e mudança climática

Sistemas de drenagem urbana foram dimensionados, na maioria das cidades brasileiras, para regimes de chuva de décadas atrás. Com a intensificação de eventos extremos — chuvas mais concentradas em menos tempo —, galerias que antes davam conta passam a transbordar. Em anos de El Niño forte, como o previsto para 2026-2027, o interior paulista tende a registrar volumes acima da média entre a primavera e o verão, o que amplia a pressão sobre redes já envelhecidas.

Manutenção não amplia a capacidade da rede, mas garante que a capacidade existente esteja disponível: uma galeria assoreada ou uma boca de lobo entupida reduzem drasticamente o escoamento, independentemente do diâmetro do tubo. É por isso que a limpeza e o reparo antes das chuvas são a medida de melhor relação custo-benefício em drenagem urbana.

Da boca de lobo ao ribeirão: como a água percorre a cidade

A rede de drenagem de uma cidade funciona em cadeia. A água da chuva escorre pelo asfalto até a sarjeta, entra pela boca de lobo, segue por um ramal curto até a galeria principal sob a via e, dali, é conduzida por tubulações de diâmetro crescente até um emissário que a lança no curso d'água mais próximo. Em Araras, esse destino final são os córregos urbanos e o Ribeirão das Araras, que corta a área central. O córrego Andrezinho, citado pela secretaria como referência para a próxima intervenção no Jardim Abolição, é um desses pontos de descarga.

Qualquer elo comprometido afeta o conjunto: boca de lobo entupida impede a captação; ramal rompido deixa a água infiltrar sob o pavimento e abrir crateras; galeria assoreada reduz a vazão de tudo o que está a montante. Por isso a manutenção precisa ser tratada como sistema, e não como lista de buracos a tapar.

Por que agora: a janela da estiagem

O calendário das obras não é casual. No interior paulista, o período seco vai aproximadamente de abril a setembro, quando o volume de água nas galerias é mínimo e as escavações podem ser feitas com segurança. É a janela em que as prefeituras concentram reparos estruturais de drenagem; a partir de outubro, com o retorno das chuvas, intervenção aberta em via pública vira risco. Concentrar as bocas de lobo da Vila Michielin, do Jardins de Samantha III e do Jardim Abolição entre agosto e setembro é aproveitar as últimas semanas dessa janela antes da temporada de tempestades.

Interdições: o custo da manutenção

Para o morador da Vila Michielin, a interdição da Ignácio Zurita Neto por três dias representou desvio e transtorno — o preço de uma intervenção que evita risco maior. Obras de drenagem em via pública sempre implicam bloqueio, e a comunicação prévia da Prefeitura, com data de início e previsão de liberação, é o que permite ao cidadão se planejar.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a transparência do cronograma é o que dá legitimidade ao transtorno. "A Prefeitura disse onde, quando e por quanto tempo. Disse qual é a próxima. Disse que está licitando empresa. É o mínimo, mas é o que a maioria das cidades não faz. Morador aceita rua fechada quando sabe o motivo e o prazo. O que ele não aceita é buraco aberto sem explicação — e é exatamente isso que a manutenção preventiva evita", analisa.

A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Obras Públicas não divulgou o prazo estimado para a conclusão da licitação nem o número total de bocas de lobo previstas no pacote de manutenção. Moradores que identificarem bocas de lobo danificadas ou afundamentos na via podem registrar a ocorrência nos canais de atendimento da Prefeitura.