A gincana "Trote Solidário" da Fundação Hermínio Ometto (FHO) encerrou sua edição de 2026 com 16,3 toneladas de alimentos não perecíveis arrecadadas nos campi de Araras e Santa Bárbara d'Oeste. A campanha, organizada pela Coordenadoria de Comunidade e Extensão, integrou calouros, veteranos, professores e coordenadores em semanas de coleta, conferência e montagem de cestas básicas, com disputa entre os cursos — vencida pela Educação Física, seguida pelo Núcleo das Engenharias. Toda a arrecadação será entregue aos Fundos Sociais de Solidariedade (Fuss) de Araras e de Santa Bárbara d'Oeste, que a destinarão a famílias em vulnerabilidade e a entidades assistenciais cadastradas. As informações são do portal Notícias de Araras.

"Acredito que todas as faculdades deveriam adotar um trote como este: é mais humano e ajuda diretamente às associações, entidades e famílias carentes. Agradeço muito a FHO. No ano passado a instituição já nos ajudou muito, e este ato solidário se repete de forma grandiosa. São toneladas de alimentos que vão beneficiar mais de 15 entidades e 10 projetos sociais da cidade", disse a presidente do Fuss de Araras, Áurea Bolli Maretto.

Do trote à cesta básica

O trote solidário substitui a tradição de recepção aos calouros — historicamente marcada por humilhações e, em casos extremos, violência — por uma competição entre cursos para arrecadar alimentos. O calouro é integrado à universidade participando de uma ação coletiva com resultado concreto para a comunidade, e o "pódio" premia o curso que mais mobilizou. É um modelo adotado por instituições de ensino superior de todo o país, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU — em especial ao de fome zero —, e que a FHO realiza anualmente nos dois campi.

Ao longo de várias semanas, os cursos se organizaram para coletar, conferir e montar cestas básicas completas — não apenas empilhar doações, mas compor kits com arroz, feijão, óleo, açúcar, macarrão e demais itens, prontos para distribuição. A disputa foi acirrada, e o resultado consagrou a Educação Física em primeiro e as Engenharias em segundo.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o número é maior do que parece. "Dezesseis toneladas são cerca de 800 cestas básicas de 20 quilos — comida para 800 famílias por um mês. Numa cidade em que o Fuss distribui óculos, enxoval e verduras para quem está no CadÚnico, isso é reforço de estoque que a Prefeitura não teria como comprar. E foi feito por estudante de 18 anos como rito de entrada na faculdade. Poucas coisas ensinam cidadania melhor do que carregar saco de arroz para quem precisa", avalia.

O que os professores viram

O professor de Educação Física Paulo Henrique Canciglieri celebrou o primeiro lugar destacando a formação cidadã: "Acredito que ser campeão é o mínimo que podemos esperar diante do verdadeiro intuito, que é passar o princípio da importância de ajudar o próximo. O empenho de todos os alunos voltados para esse segmento superou as expectativas. Mais do que os números, o importante é que o aluno entenda o seu papel social e compreenda a realidade das pessoas que estamos ajudando".

Pelo Núcleo das Engenharias, a professora Amanda Prina de Oliveira ressaltou a tradição dos cursos na campanha: "A importância dessa arrecadação é gigantesca, pois as instituições contam muito com esse apoio. A Engenharia, com seu enorme número de alunos, se mobiliza intensamente todos os anos. O grupo entende a relevância desse papel social e se compromete a arrecadar e a montar as cestas para amparar a comunidade". A professora Raíssa Silveira de Farias, do Núcleo de Negócios, enfatizou a liderança: "No Núcleo de Negócios, cada turma é liderada pelo seu representante de sala. Ver a forma como eles se organizam para realizar as doações demonstra o quanto compreendem o sentido real da ação".

Fuss: para onde vai a comida

A partir do repasse ao Fuss, os alimentos serão destinados a famílias em situação de vulnerabilidade social e às entidades assistenciais cadastradas — em Araras, mais de 15 entidades e 10 projetos sociais, segundo a presidente do fundo. O Fuss funciona como distribuidor: recebe doações de empresas, campanhas e instituições e as encaminha a asilos, casas de acolhimento, associações de bairro e famílias cadastradas, com controle de estoque e critério de necessidade. Em 2026, o fundo tem atuado também na entrega de óculos, enxovais e cestas de hortifrúti.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a parceria FHO-Fuss é um ativo da cidade. "A faculdade tem milhares de alunos e capacidade de mobilizar; o Fuss tem o cadastro de quem precisa e a logística de entrega. Um sem o outro não funciona: a FHO não sabe para quem dar, o Fuss não consegue arrecadar 16 toneladas. Juntos, resolvem. É o tipo de arranjo que deveria ter versão trimestral, não só no trote", observa.

Dois campi, uma campanha

A realização conjunta em Araras e Santa Bárbara d'Oeste — as duas cidades onde a FHO mantém campi — amplia a escala e cria comparação saudável entre unidades. A arrecadação é dividida entre os dois Fuss municipais, o que garante que cada cidade receba o que seus estudantes arrecadaram. Para a instituição, é também demonstração de presença regional: a FHO se apresenta como fundação com responsabilidade social nas duas comunidades.

Universidade e comunidade

"Mais do que profissionais, a nossa missão é entregar cidadãos para a sociedade", disse o reitor da FHO, José Antonio Mendes, ao agradecer aos envolvidos e à Coordenadoria de Comunidade e Extensão "por realizarem este evento que ressignifica a recepção dos calouros, convertendo-a em um gesto concreto de solidariedade e benefício social". A extensão universitária — a dimensão do ensino superior que leva a instituição à comunidade — é obrigatória nos currículos brasileiros desde 2018, com percentual mínimo de carga horária; o trote solidário é uma das formas mais visíveis de cumpri-la.

Do trote violento ao trote que alimenta

A mudança de cultura não é trivial. Até os anos 2000, o trote universitário brasileiro era sinônimo de tinta, cabelo raspado, humilhação pública e, em episódios que chegaram à Justiça, lesões e mortes — o caso mais conhecido, o do calouro de Medicina da USP afogado em 1999, levou universidades a proibir o trote tradicional e a criar alternativas. O trote solidário nasceu dessa proibição: manteve o rito de passagem, a competição entre cursos e a identidade de turma, mas trocou a vítima pelo beneficiário. Instituições como a FHO transformaram a semana de recepção em campanha de arrecadação, com pontuação por quilos doados, e a tradição se consolidou a ponto de calouros chegarem já sabendo que "o trote é de alimento".

Para os veteranos, a mudança também tem efeito: em vez de comandar a humilhação, organizam a logística — quem coleta, quem confere, quem monta a cesta. É trabalho de equipe com resultado mensurável, e as coordenações de curso usam a campanha como primeira atividade de integração entre turmas.

Por que 16 toneladas importam

Insegurança alimentar segue presente no interior paulista, mesmo em cidades de economia forte como Araras. Famílias em vulnerabilidade — trabalhadores informais, mães solo, idosos com benefício único — são atendidas por entidades que dependem de doação para manter cozinhas, asilos e casas de acolhimento. Uma tonelada de alimento não perecível equivale a cerca de 50 cestas básicas; 16,3 toneladas são mais de 800 cestas, ou o abastecimento de mais de 15 entidades e 10 projetos sociais por semanas. Para o Fuss, é reforço de estoque para o segundo semestre, quando as campanhas de inverno já passaram e as doações de fim de ano ainda não chegaram.

O que vem

As 16,3 toneladas serão distribuídas nas próximas semanas, com entrega formal aos Fuss de cada município. Para as famílias e entidades de Araras, o reforço chega em período de demanda alta — o inverno, quando campanhas de agasalho e alimento se concentram. A FHO parabenizou alunos, professores, funcionários e coordenadores pelo que chamou de "mais uma campanha histórica".

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o exemplo deveria se espalhar. "A presidente do Fuss disse que toda faculdade deveria fazer isso. Ela tem razão. Araras tem Univesp, Etec, escolas técnicas, cursos livres — todos recebem aluno novo todo semestre. Um trote solidário em cada uma, com o Fuss recebendo, faria da entrada no ensino superior um momento de contribuir com a cidade. A FHO mostrou o modelo há anos. Falta os outros copiarem", analisa.

A entrega dos alimentos arrecadados pelo Trote Solidário da FHO ao Fuss de Araras será formalizada nas próximas semanas. Entidades assistenciais interessadas em receber doações devem manter cadastro atualizado no Fundo Social de Solidariedade.