A Guarda Civil Municipal de Araras levou a campanha Agosto Lilás a um público pouco usual: 97 atiradores de 19 anos do Tiro de Guerra 02-053, que na quarta-feira (19) assistiram a uma palestra sobre violência contra a mulher e machismo estrutural na sede da unidade militar. O objetivo, segundo a Prefeitura, foi trabalhar a educação desses jovens para evitar que se tornem futuros agressores — uma orientação que partiu do próprio Ministério Público. Dias antes, a campanha havia montado um estande na Festa do Peão de Araras, de quinta (13) a domingo (16), com material sobre os seis tipos de violência e os canais de denúncia. As informações são da Prefeitura de Araras.

"Esse é um pedido do próprio Ministério Público, que deseja que a campanha Agosto Lilás não só ajude as mulheres vítimas de violência a identificarem e denunciarem esses atos, mas que também trabalhe na raiz do problema, na educação e conscientização dos homens, para evitar futuros casos de crimes contra as mulheres", explicou a guarda municipal Mayra Brito Meneghini, que ministrou a palestra.

Por que o Tiro de Guerra

O Tiro de Guerra é a unidade do Exército que forma reservistas em cidades do interior: jovens de 18 e 19 anos, convocados pelo alistamento obrigatório, passam meses em instrução militar sem deixar suas cidades. É um público masculino, na idade em que padrões de relacionamento se consolidam, reunido diariamente em um só lugar e sob disciplina — condições que tornam a palestra eficiente do ponto de vista de alcance e de atenção. Falar de machismo estrutural a 97 rapazes de 19 anos é, na prática, atingir uma parcela expressiva dos homens dessa idade em Araras.

"Ficamos felizes em poder colaborar com a campanha desenvolvida na cidade, e esse assunto é muito pertinente na formação desses jovens como cidadãos. Se preparamos eles para defenderem o território nacional, também podemos prepará-los para defenderem as mulheres", disse o subtenente Vinicius André de Melo, chefe de instrução do Tiro de Guerra.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a escolha do público é o que diferencia esta ação. "Campanha contra violência à mulher normalmente fala com mulher: como identificar, como denunciar, onde buscar ajuda. Tudo necessário. Mas o agressor é homem, e quase ninguém fala com ele antes de ele agredir. O Ministério Público pediu, a GCM foi ao quartel e falou com 97 jovens de 19 anos sobre machismo. Isso é prevenção na origem. Se um deles mudar de atitude, uma mulher deixou de ser vítima daqui a cinco anos", avalia.

Machismo estrutural: o tema da palestra

O conceito de machismo estrutural — o conjunto de normas, hábitos e expectativas que naturalizam a superioridade masculina e a subordinação feminina — foi o eixo da conversa com os atiradores. A abordagem parte da ideia de que a violência física é o ponto final de uma escala que começa em piadas, controle, ciúme, desqualificação e isolamento, comportamentos que muitos jovens não reconhecem como violência. Nomear essa escala e mostrar onde cada um se situa nela é o objetivo educativo.

Palestras desse tipo, com homens jovens, têm respaldo em programas de prevenção que tratam a masculinidade como tema de saúde pública — a mesma lógica que o Ministério Público adotou ao pedir que o Agosto Lilás em Araras incluísse os homens como público.

A Festa do Peão: campanha onde a violência acontece

A segunda ação destacada pela Prefeitura foi o estande na Festa do Peão de Araras, realizada pelo Clube dos Cavaleiros no Parque Ecológico, de 13 a 16 de agosto. Em todos os dias do evento, uma estrutura montada próxima à área dos shows distribuiu materiais informativos: cartazes e folhetos explicando como identificar os seis tipos de violência contra a mulher — física, sexual, psicológica, moral, patrimonial e vicária —, como denunciar agressores e como buscar assistência e proteção.

Participaram funcionárias das secretarias de Assistência Social e de Saúde, guardas municipais e representantes da Procuradoria da Mulher. "O objetivo foi divulgar nossa campanha que está sendo veiculada, orientar possíveis vítimas, informar toda a rede de proteção existente no município e tentar diminuir os números de casos de violência contra a mulher que acontecem nesse tipo de evento", explicou a secretária de Assistência Social, Mirian Vanessa Pires Franzini.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a frase da secretária diz o essencial. "Ela reconhece que esse tipo de evento tem casos de violência contra a mulher — álcool, multidão, madrugada. Em vez de fingir que não, a Prefeitura colocou o estande ao lado do palco. É honesto e é eficaz: a mulher que está sendo assediada na festa vê o cartaz e sabe para onde ir. A festa mais popular da cidade virou ponto de orientação. Poucas prefeituras têm coragem de admitir o problema onde ele acontece", observa.

Os seis tipos de violência

O material distribuído na festa e discutido com os atiradores segue a classificação da Lei Maria da Penha, ampliada pela legislação recente. Violência física é qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal. Psicológica é a que causa dano emocional — humilhação, ameaça, controle, isolamento, vigilância. Sexual é constranger a mulher a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada, ou impedi-la de usar método contraceptivo. Patrimonial é reter, subtrair ou destruir bens, documentos e recursos. Moral é caluniar, difamar ou injuriar. E vicária, a mais recentemente reconhecida, é a violência praticada contra filhos ou pessoas próximas com o objetivo de atingir a mulher. Reconhecer as formas não físicas é, para a maioria das vítimas e dos agressores, o primeiro passo — porque são as que mais passam despercebidas.

A programação que continuou

O Agosto Lilás em Araras é realizado pela Prefeitura — secretarias de Assistência Social, Saúde e Segurança Pública e Defesa Civil — em parceria com a Procuradoria da Mulher da Câmara Municipal, e foi lançado em 7 de agosto, data em que a Lei Maria da Penha completou 20 anos. Além do Tiro de Guerra e da Festa do Peão, a programação incluiu roda de conversa com a Patrulha Maria da Penha; a palestra "Seja dona de sua trajetória", com Paola Goulart Rosa, do Sebrae, na Casa SP Afro Brasil "Ângela Maria Bento", na Rua João Buzolin, 490; a blitz educativa na Praça Barão com Patrulha, Demutran e Procuradoria; palestra de educação financeira com o Sicoob Mantiqueira na Casa da Mulher Paulista "Bruna Angleri"; atividades na OSAF; e a escuta coletiva do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher na Câmara. A campanha se estende ao Festival Cultura da Infância, no Jardim Nova Olinda, com panfletagem em 26 de setembro.

Da denúncia à prevenção: a mudança de foco

As duas ações — Tiro de Guerra e Festa do Peão — mostram uma campanha que opera em duas direções: orientar a vítima potencial onde ela está, e educar o agressor potencial antes que ele agrida. A primeira é a tradição do Agosto Lilás; a segunda é a novidade que o Ministério Público solicitou. Juntas, formam uma abordagem que a literatura sobre prevenção considera mais eficaz do que qualquer uma isoladamente.

A rede que recebe a denúncia

Toda a campanha aponta para os mesmos canais: o Ligue 180, o aplicativo "Está Acontecendo", o 153 da GCM e o 190 da PM. Em Araras, a rede de proteção inclui a Patrulha Maria da Penha, nos telefones (19) 99703-4966 e (19) 3541-1532; a Casa da Mulher, no (19) 3541-1881, com acolhimento e suporte jurídico e psicológico; a Delegacia da Mulher, no (19) 3542-1054; e a Procuradoria Especial da Mulher, no (19) 3543-3300.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o modelo deveria ser replicado. "Todo Tiro de Guerra do Brasil tem cem rapazes de 19 anos reunidos todo dia. Todo município tem festa grande com bebida e multidão. Araras juntou as duas coisas ao Agosto Lilás porque o Ministério Público pediu e a Prefeitura ouviu. Não custou quase nada — uma guarda municipal, um estande, panfleto. O que custou foi a decisão de falar com homem sobre machismo e de admitir violência na festa. Essa decisão é o que outras cidades ainda não tomaram", analisa.

A campanha Agosto Lilás 2026 de Araras encerrou a programação principal no fim de agosto, mas a rede de proteção à mulher funciona durante todo o ano. Denúncias podem ser feitas pelo 180 a qualquer hora.