A Prefeitura de Araras iniciou na terça-feira (7), na Casa da Memória "Pedro Pessotto Filho", a confecção dos moldes dos pacientes que aguardam aparelho auditivo — a etapa que antecede a fabricação das próteses. As audiometrias já haviam sido realizadas; agora, fonoaudiólogas moldam o ouvido de cada paciente para que os aparelhos, nos modelos comum e microtubo, sejam produzidos sob medida e entregues em até dois meses. O objetivo é zerar a fila de espera da cidade, que tem 750 pessoas aguardando desde 2019. As informações são do portal Notícias de Araras.
A ação faz parte do Zera Fila da Saúde, programa da Prefeitura com investimento total superior a R$ 6,5 milhões para acabar com as demandas represadas de exames, cirurgias e próteses dentárias e auditivas. As próteses auditivas bilaterais — para os dois ouvidos — custarão R$ 1.755.000, dos quais R$ 705.000 vêm de emendas parlamentares e mais de R$ 1 milhão de contrapartida do próprio município.
Sete anos de espera
Uma fila de 750 pessoas formada desde 2019 significa que há moradores de Araras esperando há sete anos por um aparelho que custa, em média, pouco mais de R$ 2 mil o par. São, em sua maioria, idosos com perda auditiva progressiva — a causa mais comum —, mas também adultos e crianças com deficiência auditiva diagnosticada. Para cada um deles, os anos sem aparelho significaram isolamento, dificuldade de comunicação, risco de acidentes e, no caso de idosos, aceleração do declínio cognitivo, que a literatura médica associa à perda auditiva não tratada.
A fila cresceu porque a oferta de próteses pelo SUS depende de serviços de referência regionais, com capacidade limitada, e porque a pandemia interrompeu por quase dois anos os atendimentos eletivos. Araras, sem serviço próprio de saúde auditiva, dependia da regulação estadual — e a demanda acumulou.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a fila de aparelhos auditivos é a mais silenciosa das filas. "Quem não ouve não reclama em voz alta. Setecentas e cinquenta pessoas, sete anos, e quase ninguém sabia. O aparelho auditivo é a prótese com melhor relação entre custo e mudança de vida que existe: dois mil reais devolvem a conversa, a televisão, a missa, o telefone. A Prefeitura decidiu pagar mais de um milhão do próprio bolso para resolver. É o tipo de decisão que não rende inauguração, mas rende gratidão de 750 famílias", avalia.
Como funciona a etapa dos moldes
O aparelho auditivo não é produto de prateleira. Depois da audiometria — o exame que mede o grau e o tipo da perda —, a fonoaudióloga faz o molde do canal auditivo do paciente com material de impressão, para que a peça que fica no ouvido se encaixe sem desconforto e sem vazamento de som. O molde vai para a fabricação; o aparelho volta programado para a perda específica daquela pessoa, e a fonoaudióloga faz a adaptação e os ajustes. O modelo comum é o retroauricular, com a peça atrás da orelha; o microtubo é a versão mais discreta, com tubo fino e receptor no canal.
A convocação dos pacientes está sendo feita pela Secretaria de Assistência Social, que entra em contato para marcar o atendimento — na terça-feira seguinte, dia 14, outro grupo foi chamado. Por isso a orientação para que quem está na fila mantenha telefone e endereço atualizados.
Zera Fila: R$ 6,5 milhões contra a demanda represada
O programa Zera Fila da Saúde é a resposta da Prefeitura ao acúmulo de procedimentos eletivos não realizados. Segundo o balanço apresentado pela gestão em julho, prevê 2 mil exames e cirurgias de média e alta complexidade e a distribuição de 1.300 próteses auditivas e dentárias. As próteses auditivas são a fatia mais cara — R$ 1,755 milhão — e a que exige logística mais longa, com audiometria, molde, fabricação e adaptação.
A combinação de emendas parlamentares (R$ 705 mil) com contrapartida municipal (mais de R$ 1 milhão) é o que viabilizou o volume: só com a emenda, a Prefeitura atenderia menos da metade da fila.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o desenho do programa é o correto. "Fila de saúde se zera com mutirão e dinheiro carimbado, não com atendimento de rotina — a rotina foi o que criou a fila. A Prefeitura juntou emenda com recurso próprio, contratou fabricação em lote e organizou a convocação pela Assistência Social. É força-tarefa. O que precisa acontecer agora é o que sempre falha: a fila não voltar a crescer. Quem protocolar pedido em 2027 não pode esperar até 2034", observa.
Como pedir um aparelho novo
Novos pedidos devem ser protocolados no Ganha Tempo, na Rua Domingos Graziano, 120, no Centro, com encaminhamento de otorrinolaringologista — da rede pública ou particular. A lista completa de documentos pode ser obtida pelo telefone 3542-7001. É preciso ter cadastro na rede municipal de saúde, feito em qualquer unidade de saúde com CPF e comprovante de residência. O caminho típico começa na UBS: consulta com o clínico, encaminhamento ao otorrino pela regulação, audiometria, laudo — e então o protocolo no Ganha Tempo.
Perda auditiva: um problema que envelhece com a população
A perda auditiva relacionada à idade atinge parcela crescente da população brasileira à medida que ela envelhece, e o aparelho é o único tratamento eficaz para a maioria dos casos. O SUS fornece próteses pela Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva, mas a capacidade dos serviços credenciados é muito inferior à demanda, o que gera filas em praticamente todos os municípios. Programas municipais como o de Araras, que compram próteses diretamente com recurso próprio e de emendas, são a forma que as cidades encontraram de contornar o gargalo.
Ouvir para lembrar: a ligação com a demência
A urgência da fila tem um argumento científico que vai além do conforto. Estudos de grande escala apontam a perda auditiva não tratada como o maior fator de risco modificável para demência em idosos — o isolamento social e o esforço cognitivo constante para entender o que se ouve aceleram o declínio. Usar aparelho auditivo, ao contrário, reduz esse risco de forma mensurável. Para os 750 ararenses que esperam desde 2019, cada ano sem prótese não foi só ano sem conversa; foi ano de exposição a um risco evitável. É por isso que fonoaudiólogos e geriatras tratam a prótese auditiva como prevenção, e não como acessório.
Próteses dentárias: a outra fila
O Zera Fila inclui também próteses dentárias — dentaduras e pontes — para pacientes atendidos pela rede municipal, com demanda igualmente represada. As 1.300 próteses citadas no balanço da Prefeitura somam as auditivas e as dentárias, e o fluxo é semelhante: avaliação, moldagem, fabricação e adaptação. Para idosos, a prótese dentária tem impacto direto na alimentação, na fala e na autoestima — e sua falta está associada a desnutrição e isolamento, os mesmos problemas que a perda auditiva causa.
Casa da Memória como espaço de atendimento
A escolha do auditório da Casa da Memória para a confecção dos moldes — em vez de uma unidade de saúde — reflete a necessidade de espaço amplo, com acessibilidade, para receber dezenas de pacientes idosos por dia em atendimento de mutirão. O prédio, que abriga o gabinete da prefeita e o museu da cidade, vem sendo usado como sede de coletivas, reuniões e ações de saúde — uma centralidade que o transforma em ponto de referência para o cidadão.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o programa tem um indicador simples. "Setecentos e cinquenta na fila em julho. A pergunta para setembro é: quantos já receberam o aparelho? A Prefeitura prometeu entrega em até dois meses a partir do molde. Se em outubro o número de atendidos for divulgado e a fila estiver caindo, o Zera Fila cumpriu o nome. É o tipo de resultado que a cidade merece ver publicado — com número, não com adjetivo", analisa.
Pacientes que estão na fila por aparelho auditivo em Araras devem aguardar o contato da Secretaria de Assistência Social e manter cadastro atualizado. Novos pedidos são protocolados no Ganha Tempo com encaminhamento de otorrinolaringologista.


