Araras confirmou em 2026 o maior número de mortes por febre maculosa desde 2020. A terceira vítima do ano é uma mulher de 52 anos, moradora da região leste da cidade, que trabalhava na coleta de material reciclado e morreu em 20 de julho — a confirmação laboratorial foi divulgada pela Secretaria Municipal da Saúde no fim de agosto. Antes dela, duas crianças, de 8 e 9 anos, haviam morrido em janeiro. Diante do quadro, as equipes da Atenção Primária intensificaram as ações de conscientização em bairros e na zona rural, segundo o portal Notícias de Araras.

"A vítima foi socorrida primeiramente na UPA e depois na Santa Casa, porém, quando procurou atendimento, os sintomas já estavam bem avançados e, infelizmente, não foi possível revertê-los", explicou Tavane Anselmo Malaguese, coordenadora do Setor de Vigilância em Saúde. As equipes de Zoonoses e da Vigilância Epidemiológica entraram em contato com a família para identificar os locais que a mulher frequentava e avaliar a necessidade de uma avaliação acarológica — o procedimento técnico que monitora e controla infestações de carrapatos em determinada área.

Nove casos desde 2020, três mortes só neste ano

Desde 2020, Araras confirmou nove casos de febre maculosa. O fato de três deles terem resultado em morte em um único ano — e dois deles em crianças — coloca o município em estado de atenção permanente. A doença, transmitida pela picada do carrapato infectado pela bactéria Rickettsia, tem alta letalidade quando o diagnóstico é tardio, justamente porque seus sintomas iniciais se confundem com os de outras infecções comuns.

Os principais sinais são febre, dor de cabeça, náuseas e vômitos, diarreia, dor abdominal e muscular, e inchaço ou vermelhidão nas palmas das mãos e na sola dos pés. Eles tendem a aparecer entre dois e 14 dias após a infecção. "Em casos de febre maculosa, o diagnóstico precoce e a busca imediata por atendimento é essencial", afirmou o secretário da Saúde, Romildo Benedito Borelli. Informar à equipe médica que se esteve em local de possível contaminação é igualmente importante, para que o tratamento adequado seja iniciado sem esperar a confirmação laboratorial.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o perfil das vítimas revela onde está o risco. "Duas crianças e uma trabalhadora da coleta de recicláveis. São pessoas que, por brincadeira ou por ofício, entram em contato com mato, terrenos baldios e áreas de vegetação onde o carrapato está. A febre maculosa em Araras não é uma doença de trilha ecológica, é uma doença do cotidiano de quem vive perto de área verde descuidada. É isso que a força-tarefa da Prefeitura precisa atacar", avalia.

Como o carrapato transmite a doença

A febre maculosa é causada pela bactéria Rickettsia, que contamina carrapatos — na região Sudeste, sobretudo o carrapato-estrela. Um detalhe importante da transmissão é que a bactéria não passa para o sangue no momento da picada: é necessário que o aracnídeo fique aderido ao corpo por pelo menos quatro horas para que a infecção ocorra. Isso significa que a inspeção do corpo e a retirada rápida dos carrapatos após passar por áreas de risco é uma medida de prevenção eficaz.

A doença pode ser transmitida em qualquer fase do ciclo de vida do carrapato, e cada fase predomina em uma época do ano. O micuim, fase larval, é mais comum entre março e junho. A ninfa, fase jovem, predomina entre julho e outubro — o período atual. O carrapato-estrela adulto aparece com mais intensidade entre novembro e fevereiro. Na prática, o risco existe o ano inteiro, mudando apenas o tamanho do carrapato e, portanto, a facilidade de percebê-lo no corpo.

"Os locais mais propícios para infecção são áreas de mata, locais úmidos, trilhas e áreas com acúmulos de folhas secas e gravetos, devendo ser evitados. Caso seja necessário estar nestes ambientes, é recomendada a utilização de botas, calças e blusas com manga longa, todos de cores claras", orientou a coordenadora Tavane Malaguese. As roupas claras facilitam a visualização dos carrapatos antes que eles se fixem à pele.

A força-tarefa municipal

Desde o início do ano, a Prefeitura de Araras intensificou o trabalho de combate e prevenção. Em fevereiro, profissionais da rede pública receberam treinamento específico sobre a febre maculosa, e a Coordenadoria de Controle de Doenças do governo estadual realizou avaliação acarológica em diferentes áreas da cidade. A partir daí, foi montada uma força-tarefa que envolve várias secretarias.

O Serviços Públicos reforçou a roçagem e a pulverização de mato alto. O Meio Ambiente apreendeu animais soltos e de grande porte — cavalos e bovinos que circulam em terrenos urbanos são hospedeiros do carrapato. A Fiscalização Urbana aplicou multas e notificou proprietários de terrenos com mato alto. A Saúde instalou placas de alerta sobre a presença de carrapatos em pontos de risco, e a Guarda Civil Municipal passou a fazer rondas nessas áreas.

A fase atual da campanha leva rodas de conversa, palestras e distribuição de folhetos explicativos às unidades de saúde do Jardim Morumbi, do Jardim Aeroporto, da Vila Dona Rosa e da zona rural — regiões escolhidas pela proximidade com áreas de vegetação e pelo histórico de ocorrências.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a resposta integrada é o caminho certo, mas exige constância. "Febre maculosa não se combate com uma campanha de um mês. O carrapato tem ciclo anual, a capivara e o cavalo continuam circulando, o terreno baldio volta a crescer em duas semanas de chuva. A força-tarefa de Araras acertou ao envolver fiscalização, meio ambiente, serviços públicos e saúde ao mesmo tempo. O desafio é manter esse ritmo em dezembro, quando o carrapato adulto aparece e a atenção pública já se dispersou", observa.

Por que o interior paulista é área de risco

A região de Araras, como boa parte do interior paulista, reúne condições que favorecem a febre maculosa: áreas de mata ciliar e vegetação remanescente próximas a bairros residenciais, presença de capivaras às margens de rios e represas — o principal hospedeiro do carrapato-estrela — e criação de animais de grande porte em áreas periurbanas. A combinação de vegetação, água e hospedeiros cria o ambiente ideal para a manutenção da população de carrapatos ao longo de todo o ano.

O caso da trabalhadora da coleta de recicláveis ilustra outra dimensão do problema: a exposição ocupacional. Pessoas que percorrem terrenos, lotes vagos e margens de vias em busca de material — assim como trabalhadores rurais, jardineiros e agentes de limpeza — estão em contato frequente com áreas onde o carrapato se concentra, muitas vezes sem a proteção adequada.

O que a população deve fazer

As orientações da Secretaria da Saúde são diretas. Evitar áreas de mato alto, trilhas e locais com acúmulo de folhas secas, especialmente com crianças. Ao entrar nessas áreas, usar roupas claras de manga longa, calças compridas e botas, e examinar o corpo ao sair — com atenção a dobras, couro cabeludo e áreas cobertas pela roupa. Retirar qualquer carrapato encontrado o mais rápido possível, de preferência com pinça, sem esmagá-lo. E, diante de febre com dor de cabeça e dores no corpo nos dias seguintes a uma exposição, procurar atendimento imediatamente e informar ao médico sobre o contato com áreas de risco.

A febre maculosa tem tratamento eficaz quando iniciado precocemente. O problema é que a janela é curta: quanto mais tarde o antibiótico adequado é administrado, menor a chance de recuperação. É essa a razão de a Secretaria insistir tanto no diagnóstico precoce e na informação ao médico sobre a possível exposição.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a comunicação é tão importante quanto a roçagem. "Três mortes num ano, num município de 130 mil habitantes, é um número que exige que cada morador de Araras saiba reconhecer os sintomas e saiba que precisa dizer ao médico que esteve em área de mato. Essa informação pode ser a diferença entre um tratamento que funciona e um que chega tarde. As rodas de conversa nos bairros são o instrumento mais barato e mais eficiente que a Prefeitura tem", analisa.

As unidades de saúde de Araras seguem com a programação de conscientização ao longo de setembro. Dúvidas sobre a doença e orientações sobre áreas de risco podem ser obtidas nas UBSs e na Secretaria Municipal da Saúde.