Uma família de Araras procurou a imprensa para questionar o atendimento prestado a um paciente na Santa Casa de Araras e pedir esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte dele. Segundo relato de uma familiar, feito em comentário nas redes sociais do próprio hospital, a família só teria sido informada de que o paciente estava com infecção generalizada depois do falecimento. As informações são do portal Repórter Beto Ribeiro, que publicou o relato na segunda-feira, 15 de setembro.
"Esperaram meu pai morrer para descobrir que ele estava com infecção generalizada. Falar o quê, né?", escreveu a familiar, conforme reproduzido pelo portal. A família afirma que busca respostas sobre o atendimento, os exames realizados e o momento em que o quadro infeccioso foi identificado.
É importante dizer com clareza o que esta matéria não afirma. O relato de uma família, por mais legítimo que seja o sofrimento, não permite concluir que houve erro ou negligência no atendimento. Não há, até o momento, laudo, sindicância ou decisão de qualquer órgão sobre o caso. A própria fonte original registra essa ressalva. O Araras.org mantém o espaço aberto para que a Santa Casa de Araras apresente a sua versão e os esclarecimentos que julgar necessários, e atualizará este texto se houver manifestação.
O que é a infecção generalizada
O termo popular infecção generalizada corresponde, na linguagem médica, à sepse: uma resposta desregulada do organismo a uma infecção, que passa a agredir os próprios órgãos. Pode começar a partir de uma pneumonia, de uma infecção urinária, de um ferimento ou de uma infecção abdominal, entre outras origens. Sem tratamento rápido, evolui para o choque séptico, com queda da pressão e falência de órgãos, e é uma das principais causas de morte em hospitais no Brasil e no mundo.
A sepse é traiçoeira porque os sinais iniciais são inespecíficos: febre ou temperatura baixa, respiração e batimentos acelerados, confusão mental, pressão baixa, sonolência, pouca urina. Em idosos e pessoas com doenças crônicas, o quadro pode se instalar sem febre e ser confundido com outras condições. Por isso, protocolos hospitalares recomendam a identificação precoce e o início de antibióticos nas primeiras horas após a suspeita, o que costuma ser decisivo para o desfecho.
Esse contexto ajuda a entender por que uma família pode receber a informação de sepse apenas em uma fase avançada, e também por que a pergunta feita pelos parentes é legítima: em que momento o quadro foi identificado e o que foi feito a partir daí. A resposta a essa pergunta está no prontuário do paciente.
O que a família tem direito de pedir
A legislação brasileira e as normas do Conselho Federal de Medicina garantem ao paciente, e, em caso de morte, aos familiares diretos, o acesso ao prontuário médico completo. O prontuário reúne as anotações de médicos e enfermagem, as prescrições, os resultados de exames e os horários de cada procedimento. O hospital não pode negar a cópia; pode apenas cobrar o custo de reprodução e exigir a comprovação do parentesco. É a partir desse documento que qualquer avaliação séria sobre o atendimento começa.
Além do prontuário, a família pode registrar o questionamento na ouvidoria do próprio hospital, que é obrigada a responder formalmente, e procurar a Ouvidoria do SUS pelo telefone 136, quando o atendimento foi feito pela rede pública. Se houver suspeita de conduta médica inadequada, o caminho é uma representação ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, o Cremesp, que instaura sindicância e pode abrir processo ético-profissional. A Defensoria Pública e o Ministério Público também podem ser acionados, especialmente quando a família não consegue obter os documentos.
Um detalhe prático: a declaração de óbito informa a causa da morte registrada pelo médico, e a família tem direito a uma cópia. Quando há dúvida sobre a causa, é possível solicitar esclarecimento ao médico que a assinou e, em situações específicas, a realização de necropsia pelo Serviço de Verificação de Óbitos.
O papel da Santa Casa em Araras
A Santa Casa de Araras é o principal hospital da cidade e atende tanto pacientes do SUS quanto de convênios e particulares, como acontece com a maioria das Santas Casas do interior paulista, entidades filantrópicas que funcionam com recursos públicos, contratos com o município e o Estado e doações. Por concentrar a urgência, a emergência e as internações de maior complexidade da região, é natural que também concentre os casos mais graves e, consequentemente, as situações em que famílias saem com perguntas.
Hospitais desse porte costumam ter comissões internas obrigatórias, como a de controle de infecção hospitalar e a de óbitos, que revisam casos e podem responder a questionamentos de forma técnica. Uma resposta pública, clara e respeitosa ao relato da família seria, nesse caso, o caminho mais adequado para o hospital, tanto para os parentes quanto para a confiança da população no serviço.
Adriano Jose Reis Martins, autor desta matéria, acompanha os serviços de saúde de Araras e faz questão de tratar este caso com a cautela que ele exige. Na minha avaliação, há duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo: a dor e a dúvida de uma família que perdeu o pai merecem ser ouvidas, e um hospital não pode ser julgado por um comentário em rede social. O que resolve esse impasse não é a opinião de ninguém, e sim o prontuário, a resposta formal da ouvidoria e, se for o caso, a análise do conselho de medicina. Cabe ao portal cobrar que essas respostas existam e sejam dadas, e é isso que vamos acompanhar.
Como agir quando há dúvida sobre um atendimento
Quem passa por situação parecida deve, em primeiro lugar, pedir por escrito a cópia integral do prontuário e anotar nomes, datas e horários de tudo o que lembrar. Em seguida, registrar a reclamação na ouvidoria do hospital e guardar o número do protocolo. Se a resposta não vier ou não esclarecer, os próximos passos são a Ouvidoria do SUS (136), o Cremesp e, se necessário, a Defensoria Pública ou um advogado. Evite tirar conclusões públicas antes de ter os documentos em mãos: isso protege a família de desgaste e dá força ao pedido quando ele estiver embasado.
Serviço
Ouvidoria do SUS: telefone 136. Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp): representação pelo site oficial ou nas delegacias regionais. Acesso ao prontuário: solicitação por escrito no hospital, com documento e comprovação de parentesco. O Araras.org está à disposição da Santa Casa de Araras e da família para publicar esclarecimentos sobre o caso.



