Araras registrou em janeiro de 2026 dois óbitos por febre maculosa — duas crianças, um menino de 8 anos e uma menina de 9, mortos em 14 e 20 de janeiro — e contabilizava, no início de março, 48 casos suspeitos e dois confirmados, os próprios óbitos. Após as mortes, a Secretaria de Saúde identificou o local comum frequentado pelas vítimas e acionou a Sucen, a Superintendência de Controle de Endemias do Estado, cujos técnicos confirmaram a contaminação das áreas verdes e de lazer do Jardim Aeroporto, na região norte, pelo carrapato transmissor. Na sexta-feira (6 de março), a Prefeitura iniciou força-tarefa na Praça Narciso Volpe e no entorno, com continuidade na segunda (9): roçagem e pulverização pelo Serviços Públicos, apreensão de animais soltos e de grande porte pelo Meio Ambiente, notificação e multa de terrenos com mato pela Fiscalização Urbana, panfletagem e placas de alerta pela Saúde e rondas da GCM. As informações são do portal Notícias de Araras.

"Queremos conscientizar os moradores do bairro para que não deixem os animais soltos, como cavalos e cachorros, pois eles são os hospedeiros do carrapato. A Prefeitura está fazendo a parte dela, mas precisamos do apoio de todos para que não ocorram mais casos", disse o prefeito Irineu Maretto. Em 4 de fevereiro, a Secretaria já havia treinado agentes comunitários, enfermeiros, médicos e veterinários de Araras, Leme e Santa Cruz da Conceição no Centro Cultural, com a veterinária Tosca de Lucca, da vigilância em saúde de Campinas e de zoonoses de Hortolândia. "A febre maculosa mata; queremos que os agentes de saúde estejam preparados para identificar rapidamente a doença", disse o secretário de Saúde, Romildo Benedito Borelli, o Baiano da Farmácia. Em 2025, a cidade tivera dois casos, com um óbito.

Febre maculosa: a doença

Causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e transmitida pela picada do carrapato-estrela (Amblyomma sculptum), a febre maculosa brasileira é a forma mais letal da doença no mundo — letalidade acima de 30% em São Paulo, chegando a 50% sem tratamento precoce. Os sintomas — febre alta, dor de cabeça intensa, dores musculares, náusea, vômito, diarreia — surgem de 2 a 14 dias após a picada e se confundem com dengue e gripe; as manchas vermelhas aparecem do 3º ao 5º dia, começando em pulsos e tornozelos. O tratamento é doxiciclina, eficaz se iniciado nos primeiros dias. "Se houver suspeita, é preciso já iniciar o tratamento, sem esperar resultados de testes que demoram de 15 a 20 dias", orienta o infectologista da Vigilância em Saúde, Rodrigo Klein.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, duas crianças mortas em uma semana é a tragédia sanitária do ano em Araras. "Um menino de 8 e uma menina de 9, do mesmo bairro, que brincaram na mesma praça. A Sucen confirmou o carrapato no Jardim Aeroporto — praça pública, área de lazer, com cavalo solto e mato alto. A força-tarefa de março é a resposta correta e tardia: roçar, pulverizar, recolher animal, multar terreno, treinar médico para dar doxiciclina no primeiro dia. Baiano da Farmácia treinou a rede em fevereiro; Maretto pediu apoio em março. O que a cidade precisa é que a Praça Narciso Volpe não volte a ter cavalo em abril. Febre maculosa se previne com capina e fiscalização — não com pesar", avalia.

Jardim Aeroporto: o foco

A região norte de Araras, com o Jardim Aeroporto, tem áreas verdes, terrenos baldios, chácaras e criação informal de cavalos — condições ideais para o carrapato-estrela, cujos hospedeiros principais são equinos e capivaras, com cães como transportadores. A Praça Narciso Volpe, frequentada por crianças, concentrava mato alto e animais soltos; a Sucen confirmou a infestação em vistoria técnica após os óbitos e passou a analisar outras áreas do município.

Sucen: o papel do Estado

A Superintendência de Controle de Endemias, vinculada à Secretaria de Estado da Saúde, faz a vigilância acarológica — coleta e identificação de carrapatos, mapeamento de áreas de risco — e orienta municípios sobre manejo ambiental. Em Araras, confirmou o vetor no Jardim Aeroporto e estendeu a vistoria a parques, margens de córregos e áreas com capivaras, como o Parque Ecológico.

A força-tarefa: cinco secretarias

Segurança e Defesa Civil coordenaram; Serviços Públicos roçou e pulverizou; Desenvolvimento Urbano e Obras fiscalizou e notificou terrenos; Meio Ambiente apreendeu cavalos e cães soltos; Saúde fez panfletagem casa a casa e instalou placas de alerta; a GCM fez rondas para impedir o retorno dos animais. É o modelo de mutirão integrado que a Prefeitura aplicou à dengue e agora ao carrapato.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o treinamento de fevereiro é o que salva vidas daqui em diante. "Febre maculosa mata porque médico pensa em dengue e espera exame. Tosca de Lucca ensinou a rede de três cidades: anamnese com pergunta sobre área verde e carrapato, doxiciclina na suspeita, sem esperar sorologia. Rodrigo Klein repetiu. Se em 2026 houver mais casos e nenhum óbito, o treinamento terá funcionado. Quarenta e oito suspeitos e dois confirmados mostram que a rede está notificando — o que é bom. O que falta é o ambiente: capina permanente e cavalo preso, no Aeroporto e onde mais a Sucen achar", observa.

Cavalos, cães e capivaras

O carrapato-estrela completa o ciclo em cavalos e capivaras — hospedeiros amplificadores — e usa cães como transporte para dentro das casas; por isso a apreensão de animais soltos e a orientação para vermifugação e uso de carrapaticida em cães são parte do controle. A criação informal de cavalos em terrenos urbanos, comum na periferia de Araras, é o principal fator de risco identificado.

Como se proteger

Evitar mato alto e áreas com capivaras e cavalos; usar calça comprida e sapato fechado em áreas verdes; examinar o corpo após passeios; retirar carrapatos com pinça, sem esmagar; tratar cães; manter terrenos capinados. Ao ter febre alta e dor de cabeça após frequentar área verde, procurar atendimento no primeiro dia e informar a exposição.

Capivaras e o interior paulista: o cenário regional

A região de Campinas e Piracicaba concentra a maioria dos casos de febre maculosa do Brasil — Campinas, Piracicaba, Limeira, Americana e Rio Claro registram óbitos todos os anos —, associados à expansão das populações de capivaras em rios, lagoas e áreas urbanas verdes, sem predadores e com alimento farto em canaviais e gramados. As capivaras carregam milhares de carrapatos e os disseminam em parques e margens; o controle populacional é tema polêmico, entre manejo ambiental e proteção animal. Araras, entre o Mogi Guaçu e canaviais, está no mapa de risco, e o Parque Ecológico, com lago e capivaras, é vistoriado pela Sucen.

Notificação compulsória e o que a rede faz

A febre maculosa é doença de notificação compulsória imediata: todo caso suspeito deve ser informado à Vigilância Epidemiológica em até 24 horas, com investigação do local provável de infecção e coleta de carrapatos. Os 48 suspeitos de 2026 em Araras refletem a rede notificando após o treinamento — muitos serão descartados por sorologia, mas a notificação garante que o tratamento comece antes do resultado. É o fluxo que o treinamento de fevereiro reforçou e que a Vigilância monitora semanalmente.

Araras, Leme, Santa Cruz: a região

O treinamento reuniu profissionais das três cidades porque o risco é regional — o rio Mogi Guaçu e afluentes, com capivaras, cortam os municípios — e porque pacientes circulam entre os serviços. A Vigilância Epidemiológica de Araras é referência para as vizinhas.

2025: o precedente

Dois casos em 2025, com um óbito e uma cura, já sinalizavam presença do vetor; os dois óbitos infantis de janeiro de 2026 elevaram o alerta e motivaram a ação estadual. A série histórica de Araras é de casos esporádicos; 2026 é o ano de maior letalidade registrada.

O que a cidade deve manter

Capina e pulverização periódicas nas áreas mapeadas, fiscalização de animais soltos com apreensão, placas permanentes, notificação de suspeitos e doxiciclina precoce — ações que precisam continuar após a comoção. A Secretaria de Saúde incluiu a febre maculosa nos protocolos das unidades.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a resposta da Prefeitura foi correta e a cidade não pode esquecer. "Duas crianças morreram numa praça de bairro por um carrapato que estava lá porque havia cavalo solto e mato alto. A Sucen confirmou, a Prefeitura roçou, multou, recolheu e treinou a rede. Baiano da Farmácia e Maretto fizeram o que se espera. O que se espera agora — de Elaine Brambilla, do Meio Ambiente, da GCM — é que a Praça Narciso Volpe seja capinada todo mês e que cavalo solto seja apreendido toda semana. Febre maculosa não some; ela espera o mato crescer", analisa.

A força-tarefa contra a febre maculosa no Jardim Aeroporto, em Araras, começou em 6 de março de 2026, após a confirmação pela Sucen da presença do carrapato transmissor na região. O município registrou dois óbitos pela doença em janeiro de 2026 e 48 casos suspeitos até o início de março.