As equipes do Setor de Combate a Endemias da Prefeitura de Araras realizaram no sábado (29) o quinto mutirão contra a dengue do ano, no Parque Dom Pedro, na região Leste da cidade. Ao todo, 992 casas foram visitadas — 643 abertas, 316 fechadas e 19 parcialmente atendidas —, e os agentes recolheram pneus, vasos, recipientes plásticos, um tanquinho e ferro-velho, materiais que acumulam água e servem de criadouro para o mosquito Aedes aegypti. Segundo o boletim epidemiológico mais recente, Araras confirmou 29 casos de dengue em 2026, sem mortes, e não registra novos casos desde junho. As informações são do portal Notícias de Araras.
A ação, marcada das 7h às 13h com concentração no PSF "Otávio João Breda", seguiu o roteiro dos mutirões anteriores — em janeiro, no Parque Tiradentes; em fevereiro, no Jardim São João; em abril, no Jardim Aeroporto; e em maio, no Jardim Morumbi. O calendário percorre bairros populosos de regiões diferentes da cidade, alternando o foco ao longo do ano.
Um terço de portas fechadas
O número que mais chama atenção no balanço é o de casas fechadas: 316 das 992, quase 32%. É um índice comum em mutirões de sábado — moradores que trabalham, viajam ou simplesmente não atendem —, mas que representa um limite operacional conhecido do combate à dengue. Um imóvel fechado com uma caixa d'água destampada ou um vaso no quintal continua sendo criadouro potencial, independentemente do esforço dos agentes nas casas vizinhas.
Por isso, a orientação da Secretaria da Saúde combina a visita com a responsabilização do morador. "É muito importante que os moradores colaborem com o mutirão, recebam nossa equipe e nos ajudem a eliminar os criadouros e outros materiais, pela própria segurança deles e dos familiares. Precisamos manter tudo limpo para evitar novos casos da doença. A situação só está controlada em nossa cidade justamente por conta dessas ações contínuas, de limpeza, cuidado e orientação", afirmou o secretário de Saúde, Romildo Benedito Borrelli, o Baiano da Farmácia.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o dado das casas fechadas é o mais útil do balanço. "Seiscentas e quarenta e três casas abertas é um bom resultado. Trezentas e dezesseis fechadas é a informação que importa: é onde o mosquito pode estar se reproduzindo sem ninguém ver. O mutirão não falhou — encontrou o limite do que o poder público consegue fazer sozinho. O próximo passo é voltar nessas casas em dia de semana, ou orientar o vizinho a avisar. Dengue se combate no quintal alheio", avalia.
O que o mutirão faz
Durante a ação, os agentes de Endemias entram nos imóveis, identificam e eliminam possíveis criadouros — recipientes plásticos, entulhos, pneus, vasos, calhas entupidas — e recolhem o material que pode acumular água. Os moradores recebem instruções sobre como evitar a proliferação do mosquito, como reconhecer os sintomas da doença e onde procurar atendimento. O Aedes aegypti transmite não apenas a dengue, mas também zika, chikungunya e febre amarela urbana, o que amplia a importância do controle.
As orientações básicas repetidas em cada visita são simples: não deixar água parada em potes e pratos de plantas; descartar corretamente lixo doméstico e entulho; trocar sempre a água dos animais de estimação; manter caixas d'água e reservatórios tampados. São medidas que dependem exclusivamente do morador — e é justamente por isso que a educação é parte central do mutirão, tanto quanto a coleta.
29 casos, zero mortes, silêncio desde junho
De acordo com o boletim epidemiológico divulgado na terça-feira (25), Araras tem 29 casos confirmados de dengue em 2026, com quatro aguardando resultado. Não houve morte pela doença neste ano, não há pessoas internadas com dengue no momento e, desde junho, o município não registra confirmação de novos casos. É um quadro de controle, especialmente quando comparado ao cenário estadual: reportagem do G1 apontou nesta semana que 81 municípios paulistas estão em situação de epidemia de dengue.
O contraste não é acaso. O ciclo da dengue no interior paulista segue a estação chuvosa e quente — os casos sobem entre janeiro e maio e caem no inverno seco. A ausência de novos casos desde junho corresponde ao período esperado de baixa, mas o número acumulado de 29 casos ao longo do primeiro semestre é modesto para uma cidade de cerca de 130 mil habitantes, e os quatro mutirões realizados de janeiro a maio coincidem exatamente com o período de maior risco.
Araras fora da lista: o quadro estadual em números
O Painel de Arboviroses da Secretaria Estadual da Saúde, com dados até 1º de setembro e divulgados pela Folha de S.Paulo, mostra que 81 dos 645 municípios paulistas — 12,5% — estão em epidemia de dengue, definida pela OMS e pelo Ministério da Saúde como incidência acima de 300 casos por 100 mil habitantes. Araras, com 29 casos para cerca de 130 mil moradores, tem incidência na faixa de 22 por 100 mil — quase 14 vezes abaixo do limiar epidêmico — e não aparece na lista, concentrada nas regiões de Araçatuba, Presidente Prudente, São José do Rio Preto, Marília e Taubaté.
O estado como um todo vive um ano melhor: 58.271 casos e 41 mortes até 1º de setembro, contra 855.132 casos e 1.112 óbitos no mesmo período de 2025, e 2 milhões de casos e 2.129 mortes em 2024, o ano mais crítico da doença no Brasil. Em 2025, 553 cidades paulistas estavam em epidemia; em 2024, 590. A queda é geral — e reflete tanto a imunidade acumulada pela população após dois anos de transmissão intensa quanto o esforço municipal de controle.
A vacinação também entra na equação. Adolescentes de 10 a 14 anos podem receber a Qdenga, da Takeda, em duas doses com intervalo de três meses, disponível nas Unidades Básicas de Saúde. A vacina Butantan-DV segue temporariamente suspensa após casos graves de reações adversas.
Por que o mutirão de agosto importa mais do que parece
Um mutirão no fim do inverno, quando não há casos, pode parecer desnecessário. É o contrário. O Aedes aegypti sobrevive à estação seca na forma de ovos, que resistem meses sem água e eclodem com as primeiras chuvas. Cada criadouro eliminado em agosto e setembro é uma população de mosquitos a menos em novembro e dezembro, quando as chuvas voltam e o ciclo recomeça. É a lógica da prevenção: atacar o vetor quando ele está mais vulnerável, não quando a doença já circula.
A previsão climática reforça a urgência. A primavera e o verão 2026-2027 devem ser marcados por um El Niño classificado como forte ou muito forte pelos serviços meteorológicos, com tendência de chuvas acima da média no Sudeste — e chuva é o combustível da dengue.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o calendário de Araras está no lugar certo. "Mutirão em janeiro, fevereiro, abril e maio, no auge da transmissão; mutirão em agosto, na baixa, para preparar a próxima temporada. Isso é programa, não reação. Vinte e nove casos e nenhuma morte num ano em que 81 cidades paulistas estão em epidemia é resultado desse programa. O risco é relaxar justamente agora, porque não há casos — e o El Niño não vai perdoar quem relaxar", observa.
Sintomas e onde procurar ajuda
A Secretaria da Saúde orienta que quem apresentar febre, dor de cabeça, dor no corpo, dor atrás dos olhos, coceira, manchas na pele, vômito ou diarreia procure o posto de saúde mais próximo de casa. O diagnóstico precoce é importante tanto para o tratamento — especialmente para evitar a evolução para formas graves — quanto para a vigilância, que usa cada caso confirmado para direcionar as ações de controle no bairro.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o esforço só se sustenta com o morador. "A Prefeitura fez cinco mutirões, tem boletim semanal, tem agente indo de casa em casa. Mas a dengue de Araras vai ser decidida nas 316 casas fechadas de sábado e em todos os quintais que o agente nunca vai ver. O secretário tem razão: a situação está controlada porque tem ação contínua. Continuar é responsabilidade de quem tem um vaso de planta em casa", analisa.
O Setor de Combate a Endemias de Araras deve anunciar o próximo bairro a receber mutirão nas próximas semanas. Moradores que identificarem terrenos abandonados, entulho ou água parada em áreas públicas podem acionar a Secretaria Municipal da Saúde pelos canais de atendimento da Prefeitura.


