A Prefeitura de Araras realizou em 28 de maio a segunda etapa do mutirão de cirurgias pediátricas do programa Zera Fila da Saúde, no Hospital São Leopoldo Mandic: nove crianças foram submetidas a procedimentos de hérnia epigástrica e postectomia — a circuncisão. A primeira etapa, em 18 de maio, havia operado dez crianças no mesmo hospital. O programa, lançado em 2026 com investimento superior a R$ 6,5 milhões — R$ 6 milhões em cirurgias de média e alta complexidade e R$ 500 mil em exames —, prevê 663 cirurgias e 1.340 exames para eliminar a fila de espera do município, que, segundo a Secretaria da Saúde, vinha desde 2022. As informações são do portal Notícias de Araras.

O então prefeito Irineu Maretto acompanhou o mutirão. "É muito positivo ter um parceiro como o Hospital São Leopoldo Mandic neste movimento tão importante para a saúde do nosso povo, principalmente das nossas crianças", disse. Maretto morreu no fim de junho e foi sucedido pela vice, Elaine Brambilla, que manteve o programa — em julho, o balanço da gestão listou 2 mil exames e cirurgias e 1.300 próteses como metas do Zera Fila.

Hérnia e postectomia: por que são cirurgias de fila

Hérnia epigástrica — a protuberância de tecido pela parede abdominal, na linha entre o umbigo e o peito — e fimose, tratada pela postectomia, estão entre as cirurgias pediátricas eletivas mais comuns: são simples, rápidas, de baixo risco e, justamente por não serem urgentes, ficam anos na fila. Enquanto esperam, as crianças convivem com dor, infecções de repetição e restrições, e as famílias com a angústia de um procedimento que "vai ser marcado". Mutirões existem para isso: reunir em um dia cirurgião, anestesista e centro cirúrgico dedicados a uma dezena de casos idênticos.

"Com essas cirurgias, as nove crianças atendidas hoje, com certeza, terão mais qualidade de vida. A São Leopoldo Mandic agradece a confiança da Prefeitura que nos deu a missão de realizar cirurgias pediátricas no município", disse o diretor administrativo do hospital, César Pinheiro.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o mutirão é a resposta certa a uma fila de cirurgia simples. "Fimose e hérnia não precisam de hospital de alta complexidade; precisam de agenda. Dezenove crianças operadas em dez dias, com hospital parceiro e equipe dedicada, é o que quatro anos de rotina não conseguiram. A fila de Araras vinha desde 2022 porque cirurgia eletiva de criança nunca é prioridade num sistema sobrecarregado. O Zera Fila deu prioridade. É simples e é raro", avalia.

A fila desde 2022

"Há anos, estávamos com cirurgias represadas, porém, em 2025, o prefeito nos deu uma missão: cuidar da saúde das pessoas de Araras! E é isso que estamos fazendo com esse movimento", comentou o secretário da Saúde, Romildo Benedito Borelli, o Baiano da Farmácia. A referência a 2022 coincide com o período pós-pandemia, em que os serviços eletivos, suspensos em 2020 e 2021, não recuperaram o ritmo — e a demanda acumulada de dois anos se somou à corrente. É um quadro repetido em municípios de todo o país, e é por isso que programas de "zeragem" de fila se multiplicaram a partir de 2023.

Os números do Zera Fila

O programa divide o investimento em duas frentes: R$ 6 milhões para cirurgias de média e alta complexidade — 663 procedimentos, incluindo as pediátricas — e R$ 500 mil para 1.340 exames, entre ressonância, ultrassonografia e eletroencefalograma. São exames de diagnóstico que, represados, atrasam tratamentos inteiros: a criança que espera a ressonância não recebe o laudo, não é encaminhada, não opera.

O Zera Fila integra um investimento de R$ 14 milhões em saúde em 2026, com emendas parlamentares e recursos próprios, que inclui a ampliação de leitos de UTI na Santa Casa — três de UTI neonatal e pediátrica e cinco de UTI adulto —, a ampliação da oferta de medicamentos gratuitos, a distribuição de próteses auditivas e dentárias e melhorias estruturais nos equipamentos da secretaria.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o pacote tem coerência. "Cirurgia, exame, UTI, prótese, remédio: são as cinco filas que toda cidade tem, e Araras decidiu atacar as cinco no mesmo ano, com R$ 14 milhões. Não é fortuna — é menos de 10% do que a Prefeitura gasta em saúde —, mas é dinheiro carimbado para o que estava parado. A UTI neonatal e pediátrica na Santa Casa é o item mais importante da lista: criança grave hoje precisa ir para Campinas ou Piracicaba. Três leitos aqui mudam isso", observa.

São Leopoldo Mandic: o parceiro

O Hospital São Leopoldo Mandic, de Araras, é a instituição contratada para as cirurgias pediátricas do programa — parceria que permite ao município usar centro cirúrgico e equipe hospitalar privados para procedimentos do SUS, mediante contrato. É um arranjo comum quando a rede pública não tem capacidade cirúrgica própria suficiente: a Prefeitura paga por procedimento, o hospital executa em blocos, a fila anda. A Santa Casa, principal hospital da cidade, concentra as urgências e recebe os novos leitos de UTI.

Quando operar fimose e hérnia

A fimose — o estreitamento do prepúcio que impede a exposição da glande — é fisiológica na maioria dos meninos até os três ou quatro anos e tende a se resolver sozinha; a cirurgia é indicada quando persiste além dessa idade, causa infecções urinárias de repetição, balanites ou dificuldade para urinar, ou quando o tratamento com pomada de corticoide não funciona. A postectomia é feita sob anestesia, em regime ambulatorial, e a criança volta para casa no mesmo dia, com recuperação de uma a duas semanas. A hérnia epigástrica, por sua vez, não regride espontaneamente: o defeito na parede abdominal permanece e pode encarcerar tecido, o que torna a correção cirúrgica a única solução definitiva — também simples e ambulatorial, mas necessária.

Em ambos os casos, o tempo de espera não é neutro: quanto mais a criança aguarda, mais episódios de infecção, mais desconforto e, no caso da hérnia, maior o risco de complicação que transforma uma cirurgia eletiva em urgência. Por isso pediatras e cirurgiões consideram esses procedimentos prioritários dentro da categoria "eletiva" — e por isso os mutirões se concentram neles.

Exames represados

Os R$ 500 mil destinados a 1.340 exames atacam a outra metade da fila. Ressonância magnética e ultrassonografia são exames de imagem cuja oferta no SUS é limitada pela quantidade de aparelhos e de profissionais; o eletroencefalograma, essencial no diagnóstico de epilepsia e de distúrbios do sono infantis, depende de neurologista para o laudo. Sem o exame, o médico não conclui o diagnóstico; sem o diagnóstico, não há encaminhamento para cirurgia, tratamento ou acompanhamento. Zerar a fila de exames, portanto, é condição para zerar a fila de cirurgias — as duas se alimentam.

Como entrar — e sair — da fila

A fila de cirurgias eletivas é alimentada pela regulação municipal: a criança é avaliada na UBS, encaminhada ao especialista, recebe indicação cirúrgica e entra na lista, ordenada por prioridade clínica e data. O Zera Fila chama os pacientes por essa ordem, e a Secretaria da Saúde entra em contato para agendar a cirurgia. Famílias com crianças na fila devem manter telefone e endereço atualizados na unidade de saúde. Informações pelo telefone 3543-1522.

Continuidade após a mudança de governo

O mutirão de maio foi acompanhado pelo prefeito Maretto; o balanço de julho, apresentado pela prefeita Elaine Brambilla, manteve o Zera Fila entre as prioridades, com as metas de exames, cirurgias e próteses. A permanência do secretário Baiano da Farmácia e o avanço das etapas — os moldes de aparelhos auditivos começaram em julho — indicam que a transição não interrompeu o programa. Para as famílias na fila, é a informação que importa.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o Zera Fila precisa de placar público. "Seiscentas e sessenta e três cirurgias, 1.340 exames: essas são as metas. Dezenove cirurgias pediátricas em maio é o primeiro número. A Prefeitura deveria publicar, todo mês, quantas foram feitas e quantas faltam — por tipo. É assim que a família na fila sabe se está andando, e é assim que a cidade sabe se os R$ 6,5 milhões estão virando atendimento. Zerar fila é meta que se prova com contagem", analisa.

O programa Zera Fila da Saúde de Araras segue em execução ao longo de 2026, com novos mutirões de cirurgias e exames. Informações sobre a fila e o agendamento estão disponíveis na Secretaria Municipal da Saúde, pelo telefone 3543-1522.