Estudantes do curso de Pedagogia da Fundação Hermínio Ometto (FHO), em Araras, desenvolveram jogos educativos exclusivos para apoiar a alfabetização de crianças do 2º ano do Ensino Fundamental — e os produziram fisicamente no FabLab, o laboratório de fabricação digital dos cursos de Engenharia da mesma instituição. Os jogos serão destinados a salas de aula de escolas municipais da cidade. A iniciativa, batizada de Projeto Interdisciplinar I, tem como tema "Jogos, Linguagem e Desenvolvimento: uma proposta interdisciplinar para a alfabetização no 2º ano do Ensino Fundamental", segundo o portal Notícias de Araras.

O diferencial do projeto está no cruzamento de áreas. Os alunos do 3º período de Pedagogia elaboraram os conceitos didáticos — o que cada jogo deve ensinar, como a criança interage, que habilidades de leitura e escrita são trabalhadas — e contaram com a tecnologia e a infraestrutura do FabLab para transformar as ideias em produtos físicos, com corte, impressão e montagem feitos no laboratório da Engenharia.

O que é um FabLab

FabLab é a abreviação de "fabrication laboratory" — laboratório de fabricação. Trata-se de um espaço equipado com máquinas de fabricação digital, como impressoras 3D, cortadoras a laser, fresadoras de comando numérico e equipamentos de eletrônica, que permitem transformar um projeto desenhado em computador em objeto físico em questão de horas. O conceito nasceu no MIT, nos Estados Unidos, e se espalhou por universidades e centros de inovação de todo o mundo como ferramenta de prototipagem rápida.

Em uma instituição de ensino, o FabLab costuma ser território da Engenharia e do Design. Abri-lo a estudantes de Pedagogia — que, em regra, não têm contato com fabricação digital — é o que torna o projeto da FHO pouco comum: o laboratório deixou de ser um recurso de um curso e passou a ser infraestrutura compartilhada da instituição.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o gesto é mais importante do que os jogos em si. "Pedagogia e Engenharia normalmente vivem em prédios separados, com professores separados e alunos que nunca se cruzam. A FHO colocou os dois no mesmo laboratório com um problema real para resolver: como ensinar criança a ler. O resultado é jogo de alfabetização feito com impressora 3D. Isso é o que universidade deveria fazer o tempo todo — e raramente faz", avalia.

Interdisciplinaridade real, não de discurso

O professor William Douglas Paes Coelho, coordenador do Núcleo de Engenharia da FHO, destacou três razões pelas quais a parceria foi decisiva. "O primeiro é gerar uma interdisciplinaridade real, promovendo a cooperação entre cursos e culturas distintas. A Pedagogia trouxe a base conceitual do que precisava ser feito para o ensino e a alfabetização, enquanto a Engenharia ajudou a materializar essa teoria em um produto real", afirmou.

O segundo aspecto é o ineditismo. "São projetos completamente inovadores, criados como uma solução personalizada para a demanda local. Não são cópias de jogos existentes; há toda uma inovação sobre eles, com potencial inclusive para registro de direitos autorais e patentes no futuro", disse o coordenador. A menção a registro autoral e patentes indica que a instituição enxerga nos jogos não apenas material didático, mas produtos com valor de propriedade intelectual.

Formação de professores na prática

Para os futuros pedagogos, o projeto funciona como laboratório de formação. A coordenadora do curso de Pedagogia, Aneridis Monteiro, ressalta o impacto da vivência: "A experiência de planejar, testar e criar um recurso lúdico aprofunda a compreensão sobre o processo de letramento e o desenvolvimento cognitivo infantil, capacitando-os a promover um ensino inclusivo e eficaz", explicou.

O trabalho conjunto com a Engenharia no FabLab também desenvolveu, segundo a coordenadora, habilidades que o currículo tradicional de Pedagogia raramente exige: diálogo interdisciplinar, criatividade técnica, resolução de problemas complexos e capacidade de trabalhar em equipes diversas. São competências que o professor levará para a sala de aula — onde, cada vez mais, precisará lidar com tecnologia e com colegas de outras formações.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a formação é o ganho mais duradouro. "Os jogos vão para a escola e vão ser usados por alguns anos. Os alunos de Pedagogia que aprenderam a projetar, prototipar e testar um recurso didático vão ser professores por décadas. A FHO está formando gente que sabe criar ferramenta em vez de só usar ferramenta pronta. Esse é o professor que a escola do futuro precisa", observa.

Agenda 2030 e responsabilidade social

O professor Gesiel Prado, responsável pelo desenvolvimento do projeto, conectou a iniciativa aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU — em particular ao objetivo de educação de qualidade. "Essa integração reflete o compromisso institucional da nossa IES com a sustentabilidade, princípio que permeia desde os planos de ensino até as atividades práticas e de extensão desenvolvidas pelos estudantes, reforçando a formação de profissionais comprometidos com a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável", afirmou.

No âmbito da extensão universitária — a dimensão do ensino superior que leva o conhecimento produzido na academia à comunidade —, o projeto cumpre função direta: os jogos educativos serão entregues a salas de aula do 2º ano do Ensino Fundamental em escolas municipais de Araras. O secretário municipal de Educação, Bruno Cesar Roza, comemorou a parceria com a rede pública.

Por que jogos ajudam a alfabetizar

A alfabetização no 2º ano é o momento em que a criança consolida a relação entre sons e letras, amplia o vocabulário escrito e começa a ler com fluência. Jogos que exigem formar palavras, associar imagens a sílabas ou completar sequências transformam essa aprendizagem em atividade lúdica, com repetição espontânea — a criança joga de novo porque quer, e a cada rodada exercita a habilidade. Materiais físicos, manipuláveis, têm vantagem adicional sobre os digitais em turmas de crianças pequenas: envolvem coordenação motora, interação entre colegas e não dependem de tela.

Produzir esses jogos localmente, a partir de demanda das próprias escolas municipais, permite adaptá-los ao contexto — vocabulário, referências, dificuldades específicas observadas pelos professores da rede — de uma forma que materiais comerciais padronizados não oferecem.

A meta nacional: criança alfabetizada até o fim do 2º ano

O foco no 2º ano não é arbitrário. Desde 2023, o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, política do Ministério da Educação executada em regime de colaboração com estados e municípios, estabelece como meta que toda criança esteja alfabetizada até o fim do 2º ano do Ensino Fundamental — e mede esse resultado por avaliações aplicadas às redes. Municípios que aderiram ao programa, como a maioria dos paulistas, recebem apoio técnico e recursos para formação de professores e material didático voltados especificamente a essa etapa.

É nesse contexto que jogos desenhados para o 2º ano ganham valor prático para a rede municipal de Araras: chegam exatamente à série em que o resultado é cobrado, produzidos por futuros professores que conhecem a realidade local, sem custo de aquisição para a Secretaria de Educação e com possibilidade de ajuste conforme o retorno das salas de aula.

Um modelo para outras instituições

O arranjo da FHO — problema real trazido pela rede pública, conceito desenvolvido por um curso, fabricação por outro, entrega à comunidade — é replicável por qualquer instituição que tenha laboratório de fabricação e cursos de licenciatura. O custo é baixo, o resultado é tangível e o benefício se distribui entre alunos, professores e escolas.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, Araras ganha em duas frentes. "A cidade tem uma fundação de ensino superior que está entregando jogo de alfabetização inédito para a escola municipal, com potencial de patente. Isso é inovação local com impacto social imediato. Se a Secretaria de Educação medir o efeito nos índices de alfabetização do 2º ano nos próximos anos, vai ter dado para pedir mais — e a FHO vai ter razão para continuar", analisa.

A entrega dos jogos às escolas municipais e o acompanhamento de seu uso em sala de aula serão coordenados pela Secretaria Municipal de Educação em parceria com a FHO. A instituição não informou se pretende disponibilizar os projetos dos jogos para reprodução por outras escolas.