O ano de 2026 marca o fim de uma era: os orelhões — os telefones públicos que foram símbolo nacional — começaram a ser retirados definitivamente das ruas de todo o Brasil em janeiro. Segundo a Anatel, 38 mil aparelhos ainda permanecem no país; em Araras, são 104 unidades, distribuídas em praças, escolas, rodoviária, universidades e outros pontos — muitas sem funcionar ou em manutenção. Quase indispensáveis no passado, tornaram-se obsoletos com a popularização dos celulares; a retirada começa agora porque, em 2025, terminaram as concessões do serviço de telefonia fixa das cinco empresas responsáveis — Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica —, que deixam de ter a obrigação legal de manter a infraestrutura de telefones públicos. As informações são do portal Notícias de Araras.
A extinção não é imediata em todos os locais: em janeiro começa a remoção em massa de carcaças e aparelhos desativados; orelhões só devem ser mantidos em cidades sem rede celular, e só até 2028. O processo já vinha ocorrendo — em 2020, o Brasil tinha cerca de 202 mil orelhões. Como contrapartida, a Anatel determinou que as empresas redirecionem os recursos para banda larga e telefonia móvel. Dos 38 mil, mais de 33 mil estão ativos e cerca de 4 mil em manutenção.
O orelhão: 1972 a 2026
Criado em 1971 pela arquiteta Chu Ming Silveira para a Companhia Telefônica Brasileira, o orelhão — a concha de fibra de vidro laranja que protege o aparelho — foi instalado a partir de 1972 em São Paulo e no Rio e espalhou-se pelo país como o telefone de quem não tinha linha em casa, num tempo em que a linha custava o preço de um carro. Nas décadas de 1980 e 1990, com fichas e depois cartões, chegou a 1,4 milhão de unidades; a privatização de 1998 impôs metas de universalização que o mantiveram nas ruas até a era do celular. Em 2026, é peça de museu que ainda ocupa calçadas.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, os 104 orelhões de Araras contam a história da telefonia no interior. "Cento e quatro conchas laranja em praças, escolas, rodoviária, universidade — a maioria muda. Quem tem menos de 30 anos nunca usou um; quem tem mais de 50 lembra da fila e da ficha. A concessão que obrigava a Telefônica a manter acabou em 2025; em 2026, vira sucata. O que fica é a pergunta de sempre: quem retira a carcaça? Se a operadora não for buscar, vira obstáculo de calçada e ponto de lixo, e a Prefeitura acaba removendo por conta própria. Araras deveria cobrar da Telefônica a retirada e, quem sabe, guardar um na Casa da Memória", avalia.
Fim das concessões: o marco de 2025
As concessões de telefonia fixa, assinadas em 1998 na privatização do Sistema Telebrás, venceram em dezembro de 2025; a Lei 13.879/2019 permitiu às operadoras migrar para autorização, sem as obrigações de universalização — orelhão a cada 300 metros, telefone em toda localidade — em troca de investimento em banda larga. Com a migração, o telefone público deixou de ser serviço obrigatório e passou a ser decisão comercial das empresas, que não têm interesse em mantê-lo.
Onde ainda há orelhão em Araras
Praça Barão, escolas estaduais e municipais, a rodoviária, a FHO, o Centro de Saúde, terminais de ônibus e bairros periféricos — os pontos em que o telefone público foi instalado por exigência de universalização e onde as carcaças permanecem. Muitos sem linha, com o aparelho arrancado ou o fone cortado; alguns ainda funcionam com cartão, praticamente sem uso.
Quem usa orelhão em 2026
Pessoas em situação de rua, idosos sem celular, moradores de áreas sem sinal e quem perdeu ou teve o celular roubado — público residual, mas real; a Anatel mantém a obrigação apenas onde não há cobertura móvel, o que não é o caso de Araras. Para emergências, o 190 e o 192 funcionam de qualquer celular, mesmo sem crédito ou chip.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o fim do orelhão é sintoma de uma mudança maior. "Em 2020, 202 mil; em 2026, 38 mil; em 2028, zero. É a velocidade com que o celular substituiu a infraestrutura fixa. A Anatel trocou a obrigação de orelhão pela obrigação de banda larga — e é isso que interessa a Araras: fibra no bairro, 5G na cidade, sinal na zona rural. A Prefeitura está migrando a telefonia para digital no mesmo mês; o país está desmontando a rede de cobre. O orelhão morre porque ninguém precisa. O que a cidade precisa é que a Telefônica, livre da obrigação de manter concha na praça, invista o dinheiro em cobertura no Caio Prado", observa.
Contrapartida: banda larga e móvel
A Anatel condicionou a desoneração das operadoras a investimentos em redes de fibra e 4G/5G, com metas por município — escolas conectadas, localidades cobertas, backhaul de fibra. Para cidades do interior como Araras, a contrapartida relevante é a expansão do sinal em áreas rurais e a fibra em bairros periféricos, que as operadoras devem comprovar à agência.
Chu Ming Silveira: a designer da concha
Chu Ming Silveira, arquiteta nascida em Xangai e radicada no Brasil, chefiava o setor de projetos da Companhia Telefônica Brasileira quando desenhou, em 1971, a cabine em forma de concha — inspirada em uma orelha e em um ovo — para proteger o aparelho do barulho e da chuva com custo baixo e instalação simples. O "orelhão", batizado pelo público, foi patenteado e exportado para dezenas de países, e virou um dos ícones do design industrial brasileiro, reconhecido em exposições no exterior. Ela morreu em 1997; a criação a sobreviveu por quase três décadas nas ruas.
Ficha, cartão e o fim do cobre
O orelhão funcionou com ficha metálica até os anos 1990, depois com cartão indutivo — o cartão telefônico que virou item de coleção — e, por fim, com moedas e cartões de crédito em poucos modelos; a rede de cobre que o alimentava é a mesma da telefonia fixa residencial, cujo desligamento até 2028 encerra a infraestrutura inteira. As operadoras retiram o aparelho e, quando viável, a concha; a fiação subterrânea permanece até a desativação da central. É o mesmo movimento que leva a Prefeitura de Araras a migrar seus troncos para IP em 2026.
Retirada: quem faz e como
As operadoras são responsáveis por remover aparelhos e carcaças, com cronograma por estado; em muitas cidades, prefeituras cobram a retirada por meio de fiscalização de posturas, já que a concha abandonada obstrui calçada e acumula lixo. Araras não divulgou cronograma; o Código de Posturas permite notificar a empresa.
O orelhão como patrimônio
Museus, coleções e prefeituras têm preservado exemplares — a concha de Chu Ming Silveira é ícone do design brasileiro, exposto no MoMA e em mostras de design. Cidades como São Paulo e Curitiba mantiveram alguns como marco urbano; Araras pode guardar um na Casa da Memória como registro da era.
Telefonia fixa: o que ainda resta
Linhas fixas residenciais caem ano a ano — menos de 25 milhões no país —, substituídas por celular e VoIP; empresas e órgãos públicos migram PABX para IP, como a Prefeitura de Araras faz em 2026. A rede de cobre será desligada até 2028, e a fibra assume.
O que muda em Araras
Nos próximos meses, as 104 conchas devem desaparecer das praças e escolas; a Prefeitura pode cobrar a retirada e reaproveitar os pontos. Para o cidadão, nada muda — o celular já era o telefone público de todos.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia é nostalgia com utilidade. "Cento e quatro orelhões em Araras, 38 mil no Brasil, zero em 2028. Fim de uma era que a maioria nem percebe. O que importa não é a concha laranja — é o que a Anatel exigiu no lugar: fibra e sinal. Se a Telefônica investir em Araras o que economiza com orelhão, a zona rural ganha 4G e a periferia ganha banda larga. A Prefeitura deveria cobrar as duas coisas: a retirada da carcaça e a contrapartida em rede. E guardar um orelhão na Casa da Memória, ao lado do gabinete, para as crianças perguntarem o que é", analisa.
A retirada dos orelhões das ruas brasileiras começou em janeiro de 2026, após o fim das concessões de telefonia fixa em 2025. Araras contava com 104 unidades de telefones públicos no início do ano, segundo levantamento divulgado pelo portal Notícias de Araras.

