A Santa Casa de Misericórdia de Araras deu o primeiro passo para um novo projeto de eficiência energética, que pode incluir a instalação de geração solar e a substituição de equipamentos de alto consumo. Em reunião na quinta-feira (13), representantes da Prefeitura, do hospital e da empresa Vitális Energia discutiram a participação da instituição na próxima chamada pública do Programa de Eficiência Energética (PEE), da Agência Nacional de Energia Elétrica, que deve ser aberta em breve pela distribuidora Neoenergia Elektro. Para entidades filantrópicas como a Santa Casa, os recursos do programa são a fundo perdido — não precisam ser devolvidos. As informações são da Prefeitura de Araras.
A Santa Casa tem um precedente favorável. Em 2022, por articulação da Coordenadoria de Gestão Energética do município junto à Elektro, o hospital recebeu a substituição de aproximadamente mil lâmpadas fluorescentes por LED, com recursos do mesmo programa. O resultado foi uma redução de 40% no consumo de energia destinado à iluminação dos 317 ambientes do prédio — economia que se repete todos os meses desde então.
O que é o PEE e de onde vem o dinheiro
O Programa de Eficiência Energética existe por força de lei: toda concessionária de distribuição de energia do Brasil é obrigada a aplicar 0,5% de sua receita operacional líquida em projetos que reduzam o consumo de seus clientes. As distribuidoras selecionam esses projetos por meio de chamadas públicas anuais, com regras de transparência que permitem a consumidores — empresas, prefeituras, hospitais, escolas — apresentar propostas e disputar os recursos.
Para órgãos públicos e entidades filantrópicas, como a Santa Casa de Araras, a distribuidora financia integralmente o projeto, sem contrapartida: são recursos a fundo perdido. Para empresas privadas, há exigência de participação nos custos. É esse desenho que torna o programa especialmente atraente para hospitais filantrópicos, que têm contas de energia altas, orçamento apertado e nenhuma capacidade de investir por conta própria em modernização.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o PEE é um dos mecanismos mais subutilizados do setor elétrico. "Meio por cento da receita de toda distribuidora do país, todo ano, para financiar eficiência — e hospital filantrópico não paga nada. É dinheiro que existe por lei, que a Elektro tem que gastar, e que a maioria das santas casas do interior nunca acessa porque não sabe que existe ou não tem quem escreva o projeto. Araras acessou em 2022, economizou 40% na iluminação, e está voltando. Isso é gestão", avalia.
As etapas: do diagnóstico à comprovação
A reunião detalhou o caminho até o recurso. A primeira etapa é o diagnóstico energético — um levantamento técnico de onde e como o hospital consome energia, equipamento por equipamento, ambiente por ambiente. A segunda é a estruturação do projeto: com base no diagnóstico, define-se o que trocar, o que instalar e quanto cada medida economiza, e o documento é submetido à chamada pública. A terceira é a execução das ações de eficiência, após aprovação. A quarta, exigida pela Aneel, é a comprovação da economia gerada: medições antes e depois que demonstram que o resultado prometido se realizou.
É a última etapa que diferencia o PEE de uma simples doação. A distribuidora precisa provar à agência reguladora que o dinheiro produziu economia real de energia — o que obriga os projetos a serem tecnicamente sólidos e mensuráveis.
Onde está o potencial: equipamentos e sol
Segundo a Vitális, o maior potencial de economia na Santa Casa está agora na iluminação remanescente e em equipamentos específicos — sistemas de climatização, motores, bombas, autoclaves e outros aparelhos de uso intensivo em hospitais —, além da instalação de fontes incentivadas: geração a partir de recursos limpos e renováveis, como solar, eólica, biomassa ou pequenas centrais hidrelétricas. Na prática, para um hospital urbano no interior paulista, a fonte viável é a solar fotovoltaica, instalada no telhado ou em estrutura própria.
Um hospital funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano, com carga elétrica constante — perfil que torna a geração solar particularmente vantajosa, já que boa parte da energia produzida durante o dia é consumida no próprio local, sem depender da compensação na rede. Somada à troca de equipamentos, a geração própria pode reduzir de forma expressiva a conta que hoje pesa sobre o orçamento da instituição.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a energia solar em hospital filantrópico tem retorno duplo. "Cada real que a Santa Casa deixa de pagar na conta de luz é um real que vai para leito, medicamento ou salário de enfermeiro. Placa solar paga com dinheiro do PEE é economia perpétua sem investimento inicial. E o hospital ganha resiliência: em apagão, quem tem geração própria e bateria mantém o essencial funcionando. É a única instituição da cidade em que energia é literalmente questão de vida", observa.
Quanto um hospital gasta com energia
Em hospitais, a energia elétrica costuma figurar entre os maiores custos operacionais depois de pessoal e insumos médicos. A climatização — obrigatória em centros cirúrgicos, UTIs e áreas de esterilização — responde pela maior fatia, seguida de iluminação, equipamentos de imagem e diagnóstico, lavanderia e cozinha. Como a operação é contínua, não há como reduzir o consumo desligando setores: a economia precisa vir de equipamentos mais eficientes, de controle inteligente de temperatura e iluminação, e de geração própria. É exatamente o cardápio que o diagnóstico energético da Santa Casa vai detalhar.
A experiência de 2022 dá a medida: a troca de lâmpadas, a intervenção mais simples possível, reduziu 40% do gasto com iluminação. Equipamentos e geração solar, que atacam parcelas maiores da conta, tendem a produzir economia proporcionalmente superior.
Quem participou
Pela Santa Casa de Araras estiveram na reunião o provedor Eduardo de Moraes, o procurador Rui Cesar Alves e o vice-presidente Fabio Luiz D'Alessandri. Pela Prefeitura, o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Sérgio Marcos Zurita Fernandes; Junior Salviatto, da Coordenadoria de Gestão Energética; e Vanessa Buzolin, diretora da Secretaria Municipal do Governo. Pela Vitális Energia, Roberto Mendes. A presença da consultoria é o elo técnico: são empresas especializadas que elaboram o diagnóstico e o projeto no formato exigido pela chamada pública.
A coordenadoria que articula
A Coordenadoria de Gestão Energética, vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, é a estrutura municipal que viabilizou o projeto de 2022 e agora o de 2026. A mesma coordenadoria promoveu em agosto e setembro um ciclo de palestras sobre uso consciente de energia nos Cras da cidade, voltado a famílias de baixa renda, e acompanha o consumo dos prédios públicos e da iluminação urbana. É um caso raro de cidade média com equipe dedicada ao tema — e o resultado na Santa Casa mostra por que vale a pena.
Santa Casa: o hospital da cidade
A Santa Casa de Misericórdia é o principal hospital de Araras e referência para urgências, internações e cirurgias pelo SUS, atendendo também municípios vizinhos. Como toda santa casa brasileira, opera com financiamento público insuficiente para os custos reais e depende de gestão rigorosa para fechar as contas. Energia elétrica é um dos maiores itens de despesa fixa de um hospital — climatização, iluminação contínua, equipamentos de imagem, esterilização —, e reduzi-la sem investimento próprio é uma das poucas alavancas financeiras disponíveis à instituição.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o projeto merece acompanhamento público. "A Santa Casa é filantrópica, atende pelo SUS e vive apertada, como todas. Um projeto que pode tirar dezenas de milhares de reais por ano da conta de luz, financiado pela distribuidora por obrigação legal, é o tipo de coisa que a cidade inteira deveria torcer para dar certo — e cobrar que dê. O primeiro projeto, de 2022, entregou 40% de economia na iluminação. O segundo, com solar e equipamentos, pode entregar muito mais. Que a chamada pública saia logo e que a Santa Casa esteja pronta quando sair", analisa.
A Neoenergia Elektro ainda não divulgou a data de abertura da chamada pública do PEE de 2026. A Santa Casa de Araras e a Vitális Energia devem iniciar o diagnóstico energético nas próximas semanas para ter o projeto pronto quando o edital for publicado.




