A Prefeitura de Araras informou que faz acompanhamento de pessoas acumuladoras — que guardam em casa grande quantidade de objetos sem utilidade —, em parceria entre Vigilância Sanitária, Setor de Combate a Endemias e as secretarias de Serviços Públicos e de Assistência Social. Na quarta-feira (3 de junho), servidores retiraram mais de 10 mil quilos de material de uma residência no Parque Tiradentes, após denúncia; a proprietária permitiu a retirada e assinou termo de responsabilidade. "Quando isso acontece, nós começamos a acompanhar a pessoa, oferecendo atendimento com psicólogo e assistente social. Se precisar de algum tratamento de saúde, também já é feito o encaminhamento", explica o chefe do Setor de Combate a Endemias, Carlos Calsior Cândido. As informações são do portal Notícias de Araras.

A acumulação compulsiva é doença crônica que leva a pessoa a acumular objetos de forma desmedida, independentemente de valor monetário ou sentimental; genética, funcionamento cerebral e acontecimentos estressantes podem desencadeá-la. Quem identificar acumuladores em Araras pode denunciar pela Ouvidoria, no 156, inclusive de forma anônima.

Dez toneladas: a dimensão

Dez mil quilos de material numa única casa — o equivalente a várias caçambas — dão a medida do quadro: anos de acúmulo de papel, plástico, móveis, roupas, embalagens e entulho, ocupando cômodos, quintal e passagens. Além do risco à própria moradora — incêndio, queda, insalubridade —, o acúmulo é criadouro de Aedes aegypti, roedores e escorpiões, o que explica a presença do Setor de Endemias na frente da ação. É saúde pública do quarteirão inteiro.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia importa pelo método. "Dez toneladas de uma casa é manchete; o que vale é o que vem depois: psicólogo, assistente social, encaminhamento de saúde. Acumulação é transtorno reconhecido — está no DSM-5 —, e retirar o material sem tratar a pessoa é garantir que a casa encha de novo em dois anos. Araras montou o fluxo certo: Endemias entra pela dengue, Vigilância pela insalubridade, Serviços Públicos pela caçamba e Assistência Social pela pessoa. A proprietária assinou termo — consentiu. É a diferença entre limpeza e cuidado", avalia.

Acumulação compulsiva: o transtorno

Reconhecido como diagnóstico próprio desde 2013, o transtorno de acumulação afeta entre 2% e 5% da população, com início na adolescência e agravamento na velhice; associa-se a ansiedade, depressão, luto e isolamento. A pessoa sente angústia intensa ao descartar e atribui valor a itens sem utilidade; a casa torna-se inabitável. O tratamento combina psicoterapia — em especial a cognitivo-comportamental —, medicação quando há comorbidade e apoio para a organização gradual. Retiradas forçadas sem acompanhamento costumam agravar o quadro.

Por que a Endemias entra

Casas de acumuladores são os focos mais persistentes de Aedes aegypti em áreas urbanas: recipientes aos milhares, impossíveis de vistoriar, com água parada em cada um. O Setor de Combate a Endemias, que mapeia criadouros bairro a bairro, é frequentemente o primeiro a identificar o caso — e é por isso que o chefe do setor, Carlos Calsior Cândido, coordena a resposta. A retirada no Parque Tiradentes, bairro do primeiro mutirão de dengue do ano, integra a estratégia de controle do vetor.

Termo de responsabilidade e consentimento

A retirada só ocorre com autorização da pessoa — a Prefeitura não pode entrar e esvaziar uma residência sem consentimento ou ordem judicial. O termo assinado pela proprietária formaliza a permissão e o compromisso de acompanhamento. Em casos de recusa com risco sanitário grave, o caminho é a Vigilância Sanitária notificar e, em último caso, o Ministério Público. A abordagem de Araras privilegia o convencimento, com a Assistência Social como mediadora.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o caso mostra uma rede que conversa. "Quatro setores diferentes numa casa: quem cuida do mosquito, quem cuida da insalubridade, quem tem caminhão, quem cuida da pessoa. Em muitas cidades, cada um faz sua parte separado — ou nenhum faz, porque 'não é comigo'. Araras tem fluxo: denúncia no 156, avaliação conjunta, retirada consentida, acompanhamento. Dez toneladas saíram do Parque Tiradentes e uma pessoa entrou no atendimento psicológico. A segunda parte é a que evita a terceira retirada", observa.

Risco de incêndio e escorpiões

Casas de acumulação concentram papel, madeira e plástico em cômodos sem ventilação — combustível para incêndio que se alastra em minutos e que os Bombeiros têm dificuldade de combater pelo acesso obstruído. São também abrigo ideal para escorpiões, cuja incidência cresce no interior paulista e cujas picadas são risco grave para crianças e idosos; a Vigilância de Araras registra casos anualmente. A retirada de dez toneladas no Parque Tiradentes elimina, num dia, o maior foco de escorpião e o maior risco de incêndio do quarteirão.

Quatro secretarias, um protocolo

O fluxo de Araras define papéis: a Ouvidoria recebe a denúncia; Endemias e Vigilância Sanitária avaliam o risco à saúde; a Assistência Social aborda a pessoa, obtém o consentimento e assina o termo; Serviços Públicos executa a retirada; a saúde mental assume o acompanhamento. É protocolo intersetorial que muitas cidades só montam depois de uma tragédia — incêndio com morte, surto de dengue com origem identificada. Araras o aplica como rotina, com o Setor de Endemias como coordenador.

Reincidência: o desafio

Sem tratamento, a taxa de reacúmulo após limpeza é alta — a casa volta ao estado anterior em um a três anos. O acompanhamento psicológico e social é o que muda esse desfecho, com visitas regulares, apoio para descarte gradual e tratamento das condições associadas. A Prefeitura não divulga quantos casos acompanha nem a taxa de reincidência; publicar esses dados seria o próximo passo de transparência de uma política que já está bem desenhada.

Vizinhos: como agir

Quem convive com um acumulador na vizinhança percebe mau cheiro, insetos, roedores e risco de incêndio — e costuma hesitar em denunciar por constrangimento. A Ouvidoria 156 aceita denúncia anônima e aciona a equipe para avaliação; o objetivo declarado é atendimento, não punição. A denúncia é, na prática, o pedido de ajuda que a própria pessoa não consegue fazer.

Idosos e isolamento

Boa parte dos casos envolve idosos que vivem sós, com luto, depressão ou início de demência — perfil em que o acúmulo cresce sem que ninguém perceba por anos. A Assistência Social, ao acompanhar, avalia também rede familiar, benefícios e necessidade de cuidados; o Cras e os grupos de convivência do Fuss são o encaminhamento natural para reduzir o isolamento que alimenta o transtorno.

Serviços Públicos: a logística

A Secretaria de Serviços Públicos entra com caminhões, caçambas e equipe de carga — e com a destinação: material reciclável vai à cooperativa, entulho ao aterro, móveis inservíveis ao descarte. Dez toneladas exigem dia inteiro de trabalho e vários caminhões; é a parte visível da operação e a que os vizinhos mais notam.

Acompanhamento: o que vem depois

Após a retirada, a pessoa é vinculada ao Cras de referência e ao serviço de saúde mental do município — o CAPS ou a atenção básica com psicólogo —, com visitas periódicas para verificar reincidência e oferecer suporte. O sucesso se mede em anos: a casa que não volta a encher. A Prefeitura não divulga número de casos acompanhados.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a notícia deveria mudar a forma como a cidade vê o acumulador. "Não é desleixo, não é teimosia — é doença, com nome, prevalência e tratamento. A Prefeitura de Araras diz isso no comunicado oficial, o que é raro. E oferece o que a doença precisa: retirada com consentimento e psicólogo depois. O vizinho que liga no 156 não está denunciando; está pedindo ajuda para alguém que não consegue pedir. Dez toneladas no Parque Tiradentes são o sintoma. O tratamento é o que a Assistência Social vai fazer nos próximos meses, longe da caçamba", analisa.

A retirada de mais de 10 mil quilos de material de uma residência no Parque Tiradentes, em Araras, ocorreu em 3 de junho de 2026, com autorização da proprietária. Denúncias sobre acumuladores podem ser feitas à Ouvidoria pelo 156.